Rumo à conquista do mercado mundial
Apesar de reconhecer que o real valorizado pode prejudicar as exportações brasileiras no médio prazo, o ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (MDIC), Luiz Fernando Furlan, diz que o governo está atento a esse e outros problemas e disposto a resolvê-los, dando prioridade ao comércio externo brasileiro.
Em entrevista exclusiva ao Diário do Comércio , na sede do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), em São Paulo, ele garante que o governo está reduzindo impostos, simplificando processos burocráticos e investindo na infra-estrutura ferroviária, portuária e aeroportuária para evitar “gargalos” de curto prazo para os exportadores.
O ministro também está convencido que o número de pequenas empresas engajadas no comércio mundial crescerá em 2005, e que a negociação com a União Européia (UE) é a mais importante, pois poderá trazer benefícios de até US$ 2,5 bilhões ao Brasil no curto prazo.
Diário do Comércio: O Sr. confirma a meta de 13% de crescimento para as exportações este ano, passando de US$ 96,475 bilhões, para US$ 108 bilhões, mesmo depois de um salto de 32% em relação a 2003 ?
Luiz Fernando Furlan: Essa é uma meta que será atingida, pois foi baseada numa pesquisa feita pela nossa equipe com os principais setores exportadores brasileiros. Não é uma meta tirada do éter.
DC: Mesmo com algumas ameaças ? A começar com o preço das commodities em queda.
LFF: O efeito não será geral. Terá impacto no complexo soja, que, em 2004, teve preços elevados fora da média histórica. Há vários produtos do agronegócio que continuam com preços sustentados ou melhorando, como o café, o açúcar e o suco de laranja. No setor de carne, as perspectivas são positivas e, no de metais, a começar pelo aço, a expectativa é de um primeiro semestre com preços ainda bastante sustentados.
DC: O maremoto na Ásia pode afetar o mercado de commodities ?
LFF: Acho que sim, que trará alguma repercussão nos preços agrícolas porque muitas safras foram destruídas, frutas tiveram problemas, o que abre um espaço de recuperação para produtos brasileiros.
DC: E quanto à possibilidade de novas barreiras protecionistas ?
LFF: Ao longo desses dois anos, plantamos muitas sementes. As viagens do presidente Lula, da nossa equipe, os mais de 50 países visitados, os eventos promovidos pela Apex (Agência de Promoção das Exportações), outros 500 eventos no exterior este ano, tudo isso produzirá resultados. O apoio do Sebrae e da Apex aos pequenos negócios, a incorporação de novas empresas ao processo exportador, a mudança cultural que existe hoje no empresariado brasileiro, olhando o mercado externo de forma permanente, tudo isso vai frutificar ao longo de 2005. Portanto, tenho certeza que, mesmo com algumas adversidades na conjuntura externa, vamos ultrapassar os US$ 100 bilhões já no primeiro semestre (anualizados) e buscar a meta de US$ 108 bilhões no ano.
DC: A combinação do desaquecimento da economia americana e chinesa com um aumento das importações não assusta?
LFF: Há efeitos positivos e negativos. Mas, na soma geral, o cenário para as nossas exportações continua favorável. Se as importações crescerem pode acontecer uma redução do saldo comercial, como decorrência do nível de atividade do mercado interno, que demandará mais matérias primas, componentes, máquinas e equipamentos.
DC: O Sr. mesmo vem chamando a atenção para o perigo que representa a valorização do real.
LFF: Vários segmentos exportadores têm colocado a preocupação de perder rentabilidade por causa do câmbio. São, em geral, produtos industrializados que concorrem com países em que o espaço para aumento de preços é muito limitado. O que diversos empresários estão fazendo é vender, em alguns mercados, na moeda local, como no Japão, nos países do Euro e mesmo na Inglaterra e Suíça.
DC: Mas a maioria ainda usa o dólar…
LFF: Cerca de 70% das nossas vendas externas vão para países que usam o dólar. Por isso, temos que reconhecer que uma cotação baixa no médio prazo é desfavorável.
DC: E as importações ?
LFF: As importações serão favorecidas (pelo câmbio atual). Contudo, a Embraer, por exemplo, compra turbinas americanas, partes de aviões da Europa e tudo isso faz um grande cesto de custos que aparentemente está sendo suportável. O setor automotivo irá crescer porque é competitivo também em caminhões, máquinas e autopeças. O de calçados deverá ter expansão de 15% este ano e, na área de minério e de aço, a previsão também é positiva.
DC: E qual o horizonte para as pequenas e médias empresas nacionais?
LFF: Vejo que muitas estão se engajando nas missões feitas pela Apex. Depois da experiência do primeiro embarque, elas descobrem um futuro promissor e acabam se convertendo em exportadoras. Dificuldades de aprendizado, falta de conhecimento e informação estão sendo superadas com programas do nosso Ministério. No programa Estado Exportador, levamos todas as equipes envolvidas em comércio exterior, BNDES, Banco do Brasil, Correios, Receita Federal, entre outras, para dar cursos e palestras. Cada evento tem surtido muito efeito e reunido de 600 a 2 mil pessoas.
DC: O Sr. acha que acabou a cultura de abandonar as exportações quando o mercado interno volta a se aquecer?
LFF: Ficou provado em 2004 que isso não aconteceu, contrariando prognósticos pessimistas e certas oscilações de que há setores no limite da sua capacidade de produção. Isso está mal colocado: há setores que trabalham notoriamente no limite da produção, como o de aço, celulose ou alumínio, nos quais não se pára a produção na sexta para recomeçar na segunda. As exportações de aço caíram 7,2% em volume, em 2004, para atender o mercado interno, mas cresceram em dólares com a melhora nos preços internacionais.
DC: Mas o governo não está andando devagar na negociação dos acordos com a União Européia (UE) e com os EUA, dando pouca atenção para a Alca ?
LFF: O Itamaraty tem feito um grande esforço nos acordos internacionais e garantiu muitos avanços. Por exemplo, com os Países Andinos, África do Sul, Índia. Temos ainda três grandes negociações: com a Organização Mundial do Comércio (OMC), Alca e UE-Mercosul. Essa negociação é a que pode trazer resultados de curtíssimo prazo, porque daria acesso imediato aos nossos produtos em mercados em que o Brasil tem hoje grandes limitações. Cálculos do Ministério da Agricultura mostram que traria de imediato benefícios de cerca de US$ 2,5 bilhões. Na OMC, mesmo que o acordo seja favorável ao G-20, ao Brasil, nós vamos ter uma implementação lenta e gradual que pode levar 10 anos ou mais.
DC: E a Alca ?
LFF: Aí vai depender de como se compõe a nova equipe do governo Bush. Provavelmente nos próximos dias conheceremos o novo representante para o comércio exterior e qual será a posição norte-americana para que se fixe um cronograma para este ano.
DC: Ou seja, 2005 está garantido.
LFF: Realmente não vejo grandes ameaças para o crescimento das nossas exportações no curto prazo, em 2005 e 2006. Além das empresas estarem engajadas no processo exportador, temos uma política de governo para melhorar nossa infra-estrutura, reduzir a carga de impostos e melhorar o trânsito aduaneiro.
DC: Mas os empresários continuam reclamando muito da burocracia, da carga tributária, da infra-estrutura inadequada e deficiente. E insistem que aí estão perigosos gargalos já para este ano.
LFF: Na infra-estrutura temos ações concretas coordenadas pela Casa Civil e Ministério dos Transportes para eliminação de gargalos dos 11 portos prioritários, que representam 90% do nosso transporte marítimo. A Infraero está melhorando os aeroportos, inaugurou recentemente o novo terminal de cargas de Manaus (AM), ampliou o aeroporto de Petrolina (PE), e há muitas outras obras em andamento. O governo está aplicando recursos orçamentários e via BNDES para ampliar a malha ferroviária. E agora com as PPPs (Parcerias Público-Privadas) esperamos que alguns trechos importantes possam ser implantados e prolongados, como no caso da Norte-Sul, da Transnordestina e da Ferronorte.
DC: Em relação à carga tributária…
LFF: Estamos estudando cada vez mais a desoneração das exportações. Com a criação do Reporto, há isenção total de impostos para importações visando estimular as empresas públicas e privadas a fazerem os investimentos necessários na zona portuária.
DC: Quanto à burocracia…
LFF: Há melhorias na área da Receita Federal em relação ao trânsito aduaneiro, com implantação do Recof e do Canal Azul, para que os produtos fiquem o menor tempo possível na zona aeroportuária. Nosso Ministério simplificou 42 procedimentos e continua trabalhando com a implantação do Siscomex 2. Em 2005, vai ficar mais fácil ainda lidar com o comércio exterior e a gente espera que haja uma coordenação dos órgãos federais dos portos e aeroportos, pois hoje, em geral, os sistemas eletrônicos não conversam entre si, e também trabalham com horários diferentes.
DC: Isso envolve vários ministérios.
LFF: O Ministério da Agricultura, da Saúde, dos Transportes, da Marinha, Fazenda, e o MDIC estarão atuando em conjunto para haja uma simplificação de procedimentos e, com isso, melhore o estímulo para quem atua no comércio exterior.
Por Sergio Leopoldo Rodrigues





