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O que esperar de 2005

Guarulhos, 04 de fevereiro de 2005

Os economistas acreditam que o país deve continuar a crescer neste ano, embora em ritmo mais lento que o de 2004

O ano de 2005 começa com perspectivas bastante promissoras. E não é para menos. Afinal, 2004 apresentou um crescimento econômico de encher os olhos de qualquer brasileiro. Há muito tempo a economia do país não tinha um resultado tão vigoroso. E, embora o desempenho passado não represente garantia de bons resultados no futuro, trata-se de um sinal importante de que deveremos ter, finalmente, um alívio no sufoco pelo qual passamos nos últimos anos.

Segundo o IBGE, o Produto Interno Bruto (PIB), ou seja, todas as riquezas produzidas no país, apresentou um crescimento de 5,3% de janeiro a setembro do ano passado, e comparação com o mesmo período de 2003. Se compararmos o terceiro trimestre de 2004 com o mesmo período de 2003, o resultado foi ainda mais significativo – 6,1%. É o melhor desempenho desde o terceiro trimestre de 1996, quando a taxa alcançou 6,3%. De acordo com o IBGE, a indústria foi o setor que mais cresceu – 7% em relação ao mesmo período de 2003. O setor de agropecuária cresceu 4,9% e o de serviços, 4,7%.

Um resultado tão expressivo criou, obviamente, expectativas positivas no mundo dos negócios. A Sondagem da Indústria de Transformação da Fundação Getulio Vargas (FGV), divulgada em dezembro, aponta que os empresários estão mais otimistas agora do que no início do ano passado. Entre os 1.003 entrevistados pela FGV, 83% esperam aumentar o faturamento de suas empresas neste ano. E, desse total, 75% estimam que a expansão será superior a 5%. Apenas 3% dos empresários prevêem faturamento menos neste ano.

A pergunta é: será que o resultado de 2004 tem consistência? Qual é a probabilidade de a economia repetir o mesmo resultado do ano passado em 2005? De forma geral, os economistas , como sempre acontece, colocam água fria na fervura. Alguns dos principais economistas do país, ouvidos por Pequenas Empresas % Grandes Negócios, acreditam que, neste ano, o país vai continuar a crescer, sim, mas eles dizem que o resultado deverá ser um pouco menor do que o de 2004. Tem gente que chega a dizer que o PIB deve crescer no máximo 2,5%. “O ritmo será menor, mas a tendência de crescimento vai continuar”, afirma o ex-ministro da Fazenda Maílson da Nóbrega, sócio da Tendências Consultoria Integrada, especializada em análises econômicas.

Um dos fatores que podem contribuir de forma decisiva par a redução do ritmo de crescimento econômico do país e o desempenho da economia americana. Com a provável alta dos juros, a tendência é de a economia americana esfriar, com reflexos negativos em todo o planeta.

“Tudo depende do que vai acontecer nos Estados Unidos”, diz o economista Luís Paulo Rosenberg, sócio da Rosenberg & Associados, empresa de consultoria econômica e financeira. “Conforme o resultado da economia americana, O Brasil poderá ter um crescimento maior ou menor.”

Margem de erro – Outra questão que preocupa é a queda do dólar em relação ao real. Se ela persistir, pode ter um impacto negativo nas exportações, uma das principais alavancas do bom resultado alcançado em 2004. “O governo precisa dar atenção à questão do câmbio”, afirma o deputado federal e economista Delfim Netto (PP-SP). “Se não administrá-lo corretamente, pode reduzir o ritmo de crescimento da economia.”
O efeito do aumento dos juros internos nos últimos meses do ano passado pode reforçar o desaquecimento. Segundo o economista do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), órgão ligado ao Ministério do Planejamento, Eduardo Velho, a taxa real de juros será, em média, superior à de 2004, o que também poderá afetar o ritmo de crescimento, principalmente dos setores agropecuário e industrial.

A margem de erro das previsões feitas por economistas , como se sabe, costuma ser grande. O que se espera, desta vez, é que, se as expectativas deles não estiverem corretas, o erro se dê por excesso de cautela e não de otimismo.

Adriana Monteiro Fonseca
 
Bola de Cristal – Confira as previsões feitas por alguns dos principais economistas do país para 2005.

Delfim Neto – Deputado Federal, ex-ministro da Fazenda e do Planejamento
“Um dos resultados mais interessantes da política econômica do governo Lula é a redução da vulnerabilidade externa. Mas é preciso ter atenção com o câmbio para não reduzir o ritmo de crescimento do país. A taxa de câmbio que nós precisamos não é a que mantém o equilíbrio a curto prazo, mas aquela capaz de atrair para o setor exportador novos empresários de pequeno e médio porte.”

Gustavo Franco – Ex-presidente do Banco Central e sócio da Rio Bravo Investimentos
“O crescimento em 2004 foi puxado pelos bens de consumo duráveis e alavancado pelo crediário. Mas, como essa área é muito sensível À política monetária, pode sofrer com uma eventual elevação dos juros. Neste ano, portanto, fica mais evidente a necessidade de setores como o de construção civil e o de infra-estrutura acordarem. E, por ora, o panorama aí não é muito bom.”

Luís Paulo Rosenberg – Sócio da Rosenberg & Associados, empresa de consultoria econômica
“Dificilmente o país conseguirá manter o mesmo ritmo de crescimento do ano passado em 2005. Entre os fatores internos, os juros mais altos vão reforçar o desaquecimento que já se esperava. Externamente, um possível freio da economia americana terá um impacto negativo no mundo todo. Dependendo deste efeito, o crescimento do Brasil neste ano será de 2,5% ou de 3,5%.”

Mailson da Nóbrega – Sócio da Tendências Consultoria Integrada e ex-ministro da Fazenda
“O crescimento registrado em 2004 foi realmente consistente, as o ritmo de desenvolvimento da economia neste ano deverá ser menor. Os mesmos itens que impulsionaram o crescimento econômico no ano passado – novos investimentos em equipamentos, crescimento do setor industrial e de consumo familiar – devem ajudar o desenvolvimento do país em 2005. Espero um crescimento do PIB em torno de 3,5%.”

Octavio de Barros -Economista- chefe do Bradesco
“Em 2005, a economia brasileira deverá crescer um pouco menos do que em 2004, principalmente devido à desaceleração da economia mundial. Devemos registrar um crescimento de 3,6% neste ano. Não há dúvida de que o governo continuará conduzindo a economia de forma responsável, mas existe um pequeno risco associado ao cenário externo, que pode vir de um ajuste mais forte da economia americana.”

Paulo Rabello de Castro – Sócio-diretor da RC Consultores
“Em 2005, o ritmo de crescimento deve manter-se elevado, em torno de 4%, mas há fatores de risco importantes, principalmente no cenário externo. Os déficits recordes dos Estados Unidos, a manutenção do preço do petróleo num nível elevado, o provável desaquecimento da China e todo o protecionismo que tem cercado o comércio mundial podem diminuir ritmo do crescimento da economia nacional.”