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O mundo todo cabe em Cumbica

Guarulhos, 17 de janeiro de 2005

Um mundo num único lugar. Um único lugar para ganhar o mundo.

Assim é o Aeroporto Internacional de São Paulo/Guarulhos Governador André Franco Montoro. Inaugurado em 20 de janeiro de 1985, viu passar por seus dois terminais, em duas décadas de operações, 190 milhões de passageiros. Um número expressivo para aquele que é considerado o maior terminal aéreo do País e da América Latina, representando, sozinho, 30% de toda a arrecadação nacional da Empresa Brasileira de Infra-Estrutura Aeroportuária (Infraero).

Só para começar e também para se ter uma idéia de sua importância na malha aeroviária mundial, diariamente os controladores da torre autorizam uma média de 400 pousos e decolagens que interligam a capital paulista a 75 cidades brasileiras e estrangeiras em 23 países.

Porta de entrada e saída, o aeroporto de Cumbica (como também é conhecido) é um universo em si. Com população flutuante diária em torno de 100 mil pessoas (superior a muitos municípios do Estado), ocupa uma extensão territorial de 14 quilômetros quadrados. A exemplo da metrópole em que se encontra, também não pára nunca e é, igualmente, cosmopolita.

Entre tantos que passam sempre com pressa, chama a atenção a diversidade de línguas ali faladas, como uma moderna Torre de Babel. Coreano, árabe, mandarim, ídiche, híndi, africâner, russo, suíço-alemão, chinês e hebraico são alguns dos idiomas que podem ser ouvidos nos amplos e monitorados salões de embarque e desembarque. Isso sem falar nas dezenas de diferentes pronúncias do inglês, do espanhol e do português entre os 260 balcões de check-in, e muito além dos “corriqueiros” italiano, francês, japonês e alemão.

Apesar de tanta diversidade lingüística, oficialmente a “voz” do aeroporto, da locutora Íris Lettieri, anuncia os vôos apenas em português, inglês e espanhol. Mas há esquema especial de comunicação, previsto pela Infraero, para avisos extras em línguas ou dialetos específicos, viabilizado com apoio dos empregados de 40 empresas aéreas.

Rush – Também a exemplo de São Paulo, Cumbica vive seus momentos de trânsito intenso. Se pelas vias terrestres ocorrem engarrafamentos na hora do rush, pelas vias aéreas os horários de maior movimento lotam os saguões, põem em circulação os 7 mil carrinhos de bagagem e fazem com que diversas aeronaves aguardem autorização, no ar ou em terra, para tocar o solo ou decolar. São os chamados horários de pico, com 13 mil passageiros, sendo que, muitas vezes, extrapola-se a capacidade de atender confortavelmente e com segurança, no intervalo de uma hora, 3 mil passageiros chegando ou embarcando simultaneamente.

Toda essa movimentação ocorre nos períodos da manhã e da noite. Nas primeiras horas do dia são os desembarques internacionais seguidos de conexões para todo o Brasil. À noite ocorre exatamente o inverso: gente que chega a São Paulo de todas as regiões do País para prosseguir viagem rumo ao exterior. Como exemplo, apenas para os Estados Unidos companhias brasileiras e estrangeiras oferecem 36 vôos diários.

Logística – Como em toda cidade grande, segurança também é um dos aspectos que mais preocupam. No aeroporto não é diferente. Para atender o contínuo sobe-e-desce de aeronaves é necessário um rígido esquema de controle do tráfego aéreo e de logística militar em terra. A equipe do centro de controle das operações de aterrissagem e decolagem trabalha sem parar.

Posicionados diante de computadores de última geração, com telas de grande visualização (a olhos leigos, dá a impressão de entrar num desses jogos eletrônicos em lan houses) e com os olhos divididos entre o pátio e o céu, há sete controladores em cada um dos quatro turnos, com jornada de seis horas. Todos são civis, homens e mulheres, com formação específica. Cabe a eles monitorar o espaço acima do aeroporto (num raio de 5 quilômetros), orientando os pilotos em terra e no ar sobre o tempo de espera para descer, a aproximação com a pista, a posição em solo ou o momento de deixar umas das 24 pontes (ou fingers) para taxiar e decolar.

Como se não bastasse o rastreamento e monitoramento com precisão cirúrgica, os controladores ainda lidam com um fator complicador. Guarulhos, apesar de ter duas pistas (uma com 3 mil metros e outra com 3.700 metros de extensão), não tem autorização para operar pousos e decolagens simultâneos.

“Seria necessário haver um distanciamento bem maior entre as duas pistas para que isso ocorresse”, diz o ex-oficial da Força Aérea Brasileira (FAB) Leonir Pelati, coordenador do Gerenciamento de Tráfego Aéreo. Daí a razão, sobretudo nos horários de pico, de espera por uma autorização para aterrissar ou decolar. Nesse aspecto, o anúncio da construção de um novo terminal, com uma terceira pista, é mais do que bem-vindo.

Big Brother – Em terra, a equipe operacional mantém vigilância constante em toda a extensão do que é chamado sítio aeroportuário (14 quilômetros quadrados). Dentro ou fora do terminal, nada passa despercebido pelas 394 câmeras localizadas em diferentes lugares, todos considerados estratégicos por Gilmar Freitas da Silva, coordenador de Prevenção e Emergências.

Tal qual o reality show televisivo, tudo é visto por Silva e seus auxiliares. Da estrada de acesso ao aeroporto ao estacionamento, das marquises aos ambientes internos, tudo é exibido em tempo real e detalhadamente, a ponto de se identificar placas de carro à distância e situações suspeitas. Sem poder de polícia, o setor atua em conjunto com a Receita e a Polícia Federal. É esse trabalho que permite, muitas vezes, por exemplo, dar flagrantes de furto, porte de drogas ou armas.

Há, inclusive, sofisticados equipamentos para negociação com eventuais seqüestradores de aeronaves, em salas especialmente aparelhadas. Situações de exceção (assim como acidentes fatais na pista) que nunca aconteceram e que Silva espera não ter de enfrentar. Mas, se ocorrer, ele garante: “A estrutura está apta a ser acionada”.

João Jacques