Impacto dos juros elevados, esfria economia e vendas recuam
O que está por trás dos juros altos fixados pelo Banco Central, que colocam o País na liderança do ranking das maiores taxas mundiais? Quem pensou em um controle da inflação, acertou. Mas apenas em parte. Além da inflação, por trás dos juros altos há, hoje, uma economia mais fria. Há, também, empresas reduzindo seus investimentos em máquinas e equipamentos. Existe, ainda, um movimento de queda das vendas a prazo.
Quem diz isso não são os economistas nem os analistas do mercado financeiro. Não são os empresários nem tampouco o varejo. Quem diz isso é o próprio governo, por meio de números compilados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, o IBGE.
Segundo o Instituto, as vendas de máquinas, um termômetro que mostra o quanto as empresas estão investindo na sua produção, caíram. Em março de 2004, quando os juros estavam em 16,25% ao ano, as vendas de máquinas cresceram 36,5% comparadas a março do ano anterior. Mas a situação mudou. E muito.
No último mês de março, quando os juros eram de 19,25% ao ano, as vendas de máquinas se mantiveram praticamente estáveis, com uma alta de apenas 0,5% sobre março do ano passado.
Varejo – Os sucessivos aumentos dos juros, ainda que em doses pequenas, feitos pelo Banco Central a partir de setembro de 2004, não deixaram os investimentos mais tímidos apenas. O varejo, em especial aquele que vende seus produtos a prazo, também vem sentindo a mão pesada do governo no ajuste da Selic.
Segundo dados do Instituto de Economia Gastão Vidigal (IEGV), da Associação Comercial de São Paulo, a média móvel (últimos 12 meses comparados aos 12 meses anteriores) de consultas ao Serviço Central de Proteção ao Crédito, outro termômetro, agora das vendas a prazo, cresceu 5,6% comparada a abril de 2004.
Embora esse índice seja maior do que o 1,7% de crescimento de abril de 2004 sobre abril de 2003, os 5,6% estão distantes do pico de 7,2% de setembro do ano passado. Justamente o mês a partir do qual os juros começaram a subir e as vendas, a cair. “O início do aumento dos juros a partir de setembro desacelerou as vendas e com isso o mercado vem perdendo tudo aquilo que ganhou quando o governo reduziu as taxas”, diz Emílio Alfieri, economista da Associação Comercial.
Segundo Alfieri, os próprios números do governo mostram que as vendas estão caindo. Ele cita os 11% de crescimento registrados em marco do ano passado, que viraram 8,6% em março deste ano.
“As vendas só não foram menores por causa do crédito consignado”, diz Alfieri, referindo-se ao empréstimo com desconto das prestações diretamente no holerite, que tem juros bem menores do que outros tipos de empréstimo.
Com o setor produtivo investindo menos em máquinas e equipamentos, a indústria passou a andar mais devagar. Enquanto em março de 2004 registrou um crescimento de 11,9% sobre igual mês de 2003, em março último a indústria teve uma expansão de 1,7%, revelam, mais uma vez, os números do IBGE.
Roseli Lopes







