Fim do Mercosul?
Como muitos temiam, a instalação do Parlamento do Mercosul em Montevidéu produziu mais calor que luz. A ideologia dominou os debates, em lugar de se aprofundar as análises das deficiências do bloco, visando saná-las. Esse fato veio juntar a outros, aumentando em alguns segmentos no País a insatisfação com os rumos do bloco.
O descontentamento com o Mercosul não é novo e vem se aprofundando nos últimos anos. A ambição desmedida pelo progresso rápido e fácil substitui a prudência do passo seguinte após o anterior completado; seria natural que a insatisfação acabasse por emergir.
É por essa razão que o governo uruguaio ressentiu-se do pouco progresso para se atingir os objetivos da integração. Os parceiros maiores, Brasil e Argentina, atenderam a reivindicações pontuais de segmentos atingidos pela concorrência de produtores uruguaios mais eficientes e impuseram barreiras às exportações uruguaias. Mais recentemente, no episódio das papeleras , a Argentina verbalizou exacerbadamente sua oposição. Como essas plantas são consideradas essenciais para o desenvolvimento uruguaio, do conflito verbal passou-se a um conflito diplomático de maior envergadura. O incidente não nos poupou, já que se esperava que mediássemos uma solução não conflitiva para o impasse.
Nossa atitude tíbia diante da escalada das ameaças da Bolívia – país associado ao Mercosul, em processo de adesão – aos interesses das empresas brasileiras lá instaladas está fortalecendo aqueles que, no Paraguai, se sentem também ressentidos com o pouco benefício que a integração regional está trazendo ao seu país. O descontentamento paraguaio é de maior gravidade, já que somos parceiros permanentes do investimento em Itaipu e o maior comprador da energia ali gerada.
O Paraguai já obteve uma série de concessões por parte do Brasil com relação aos custos financeiros do empreendimento binacional, o que, em lugar de saciar essas demandas, as está exacerbando.
A adesão da Venezuela, como seria de se esperar, somente poderia contribuir para dificultar o já difícil entendimento interno entre os parceiros. As autoridades venezuelanas consideram “políticos” os prazos para o cumprimento dos requisitos para a adesão, particularmente com respeito a cronogramas para o desgravamento das importações intra-bloco, essência do Mercosul. Além disso, a agenda política do presidente Chávez nada tem em comum com os objetivos primordiais do Mercosul de criação líqüida de comércio entre os parceiros.
Por fim, restam os permanentes pequenos atritos entre os dois grandes parceiros, Brasil e Argentina. As listas de exceção se eternizam e salvaguardas são aplicadas no interior do bloco. Em conseqüência, os resultados vão ficando aquém do prometido e esperado, gerando ressentimentos de parte a parte.
Em vista desses fatos, não é de surpreender que haja segmentos no país que verbalizam claramente sua insatisfação com a permanência do Brasil no Mercosul. Esses segmentos voltaram a manifestar sua contrariedade após a in stalação do Parlamento do Mercosul , em que a retórica demagógica substituiu a fria análise das proposições para superar pelos menos alguns dos principais impasses do bloco.
É de concordar-se com a insatisfação daqueles que vêem muitas oportunidades de expansão dos negócios no continente americano tolhidas pelas agendas políticas de alguns dos mandatários dos países do Mercosul. E os problemas têm tudo para se agravar com a adesão apressada da Bolívia e da Venezuela.
O que é preciso examinar é se o Mercosul continua a criar “liqüidamente” comércio entre os parceiros – isto é, se não está simplesmente substituindo produtos importados de produtores mais eficientes por produção local ineficiente. Enquanto isso não ocorrer há um argumento em favor do Mercosul “econômico”.
Cabe aos opositores mostrar que isso não mais ocorre. Se assim for, estará aberta uma nova discussão: se os aspectos não econômicos – de segurança mútua, cooperação em áreas não econômicas, culturais e outras – compensam os custos da manutenção do Mercosul.







