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Virada Cultural: 24 horas de arte para todos

É como se um gigantesco avião sobrevoasse São Paulo durante 24 horas ininterruptas, do Centro a São Mateus, de Santana ao Grajaú, do Morumbi a Itaquera, pulverizando a cidade com 350 atrações culturais que pousariam nos braços animados de quase dois milhões de paulistanos. Ainda que gigantesca, a comparação pouco faz jus à grandiosidade da terceira edição da Virada Cultural, evento promovido pela Secretaria Municipal de Cultura que vai manter a cidade não apenas acordada, mas dançando e cantando, das 18h de sábado (5) até o mesmo horário do domingo 6). Com um investimento de R$ 3,5 milhões, a Virada vai levar suas atrações, marcadas por um impressionante ecletismo, para 51 pontos da capital.

A maior concentração de atrações se dará na região central, com dez palcos distribuídos entre a Praça da Sé, Boulevard São João, ruas Vieira de Carvalho, XV de Novembro e Barão de Itapetininga, Vale do Anhangabaú, Teatro Municipal, Praça Dom José Gaspar, Largo do Paissandu e Praça da República. “Por ser uma região neutra da cidade e, conseqüentemente, abranger os interesses artísticos mais distintos, é natural que o centro, além de reunir um grande número de shows, ainda ofereça a maior prova do ecletismo que é a marca do evento”, diz José Mauro Gnaspini, coordenador da Virada Cultural. Pela primeira vez desde que o projeto foi lançado, em outubro de 2005, todos os palcos do centro serão ocupados, sem interrupção, durante as 24 horas do evento. “Eu diria que esta é a principal marca desta edição”, diz Gnaspini.

O grande objetivo da Virada é, segundo seu coordenador, a possibilidade de aliar esta multiplicidade de atrações a um grande número de regiões atendidas – neste ano, por exemplo, haverá programação nas 21 unidades dos CEUs espalhados pela periferia. Mas não se trata de uma equação assim tão simples, já que o evento não menospreza seu caráter didático. “Se determinada região da cidade tradicionalmente gosta de ritmos nordestinos, nós não vamos contratar a Banda Calypso. No lugar dela, enviaremos o Cordel do Fogo Encantado, que também representa as tradições do Nordeste com uma proposta que, para aquela população, pode soar inédita”, diz o coordenador. “Procuramos não oferecer o que determinado grupo está acostumado a ouvir. Queremos apresentar novos gêneros, levar atrações que as pessoas ainda não têm o hábito de prestigiar”.

As duas edições anteriores da Virada Cultural comprovaram a vocação da cidade para os grandes espetáculos ao ar livre – que registraram um número pequeno de ocorrências médicas e policiais. “Esta é uma lição positiva que aprendemos nestes dois anos: o ânimo da população se mostra pacífico, nem precisamos de um grande efetivo policial. A cada ano, produzimos a Virada com mais tranqüilidade”.

O problema para a organização, ironicamente, surge de outra ponta – os produtores e empresários dos artistas mais renomados. “Alguns deles se recusam a entender que a Virada Cultural é um momento de ousadia artística para os grandes nomes da música popular. Uma ousadia que se reflete no horário da apresentação e no repertório sugerido. Também não queremos que os artistas façam somente aquilo a que estão habituados: se nós ousamos na estrutura, por que eles não ousam na fórmula?”

Exemplos desta ousadia, que também pode ser traduzida por saudosismo ou irreverência, são incontáveis na extensa programação da Virada. Em que outra situação seria possível ouvir, por exemplo, o músico Sérgio Bartollo, da banda Funk Como Le Gusta, interpretando ao saxofone os clássicos adocicados do americano Kenny G? Ou o pessoal do descoladérrimo grupo Jumbo Elektro dedicando-se às canções menosprezadas do pianista Richard Clayderman? Ou ainda André Abujamra, acompanhado de mais sete músicos, atacando de Ray Conniff? Todos fazem parte da Noite Kitsch, que tem como endereço a Choperia do Sesc Pompéia, na madrugada do sábado.

Imperdíveis também prometem ser, no palco nobre do Teatro Municipal, os encontros musicais criados para reproduzir, faixa a faixa, discos que marcaram época na história da MPB. João Donato, por exemplo, irá apresentar a íntegra do álbum A Bad Donato, de 1970, enquanto que Sérgio Ricardo irá recordar Deus e o Diabo na Terra do Sol, lançado em 1963. Uma das principais sambistas da nova geração, Fabiana Cozza, reúne-se aos veteranos do Zimbo Trio para tirar a poeira de O Fino da Bossa, disco lançado por Elis Regina em 1965.

Prova de que a Virada pode ser também um prazer para os olhos e não somente para os ouvidos vem da Secretaria de Estado da Cultura, que resolveu aderir ao evento e promete deixar abertos, até a meia-noite de sábado, o Museu da Língua Portuguesa, a Pinacoteca do Estado, a Estação Pinacoteca e o Museu da Imagem e do Som. O melhor de tudo: a entrada é franca.

Virada Cultural , das 18h de amanhã às 18h de domingo em 51 endereços da cidade. Confira a programação completa no site www.viradacultural.com.br.

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