O deputado federal José Eduardo Cardozo, do PT de São Paulo, não acredita que a reforma política possa sair ainda na atual legislatura. Isso complica o quadro político brasileiro. O petista acha que, sem concluir a “mãe de todas as reformas”, dificilmente serão feitas as outras – como a tributária, previdenciária e trabalhista –, fundamentais para alavancar o setor produtivo e reduzir a exclusão social
Sem muitas alternativas reais, visto que o próprio Congresso teria que votar contra alguns de seus interesses corporativos, Cardozo apontou uma alternativa bastante conhecida no mundo parlamentar: “fatiar” a reforma, começando por pontos menos polêmicos e de maior consenso, como a fidelidade partidária.
Mesmo assim, o deputado deixou claro que as “coisas só vão andar” se houver pressão da sociedade sobre o Congresso Nacional. “Por isso, não nos abandonem”, disse, brincando, para líderes empresariais de diversos setores na reunião plenária da Associação Comercial de São Paulo (ACSP).
O grande temor de Cardozo é que, sem a reforma política, o quadro político institucional, formado por partidos fracos, que dificulta “grandes acordos” de interesse nacional, seja mantido neste e nos próximos governos. Isso, segundo ele, reforçará um modelo arcaico de alianças para a governabilidade, calcado apenas na oferta de cargos, interesses menores, entre outras coisas. Sobretudo, num momento em que boa parte da classe política “está abaixo dos desafios que o País pede e exige”.
Sem a reforma política, acrescentou Cardozo, também não se discutirá a forma de financiamento das campanhas, “a porta aberta para a corrupção”. Favorável ao financiamento público, ele explica: “Grande parte do que vai hoje para todas as campanhas já é dinheiro público desviado”. Ou seja, de qualquer forma a sociedade é quem banca as campanhas eleitorais.
Ele defendeu o voto distrital misto e o voto em lista partidária como forma de dar mais credibilidade, transparência e representatividade ao sistema político. “Mas, se implodir o atual sistema, terá sido um bom começo”, afirmou.
O deputado fez duras críticas à falta de espírito público que leva situação e oposição a viverem cotidianamente uma disputa eleitoral sem fim. “Por isso não há clima para pacto algum, porque qualquer coisa é fator para disputa”, disse. Em outras palavras, “buscam-se as divergências e nunca as convergências”.
Pior que isso, segundo o parlamentar do PT, é que não é possível viver continuamente nesse palanque geral. “Isso gera um momento esquizofrênico na política”, especialmente quando a maioria da população mal conhece as regras do atual jogo político nacional.
“Mas, se a sociedade perceber essa pobreza de espírito, vai agir para a formação de pactos que levem ao desenvolvimento”. Sem isso, alertou, “o Brasil não vai avançar um milímetro”.
Alencar Burti, presidente da ACSP, reconheceu que o quadro político partidário precisa ser mudado. “Sem a reforma política, as outras reformas podem acabar sendo transformadas em remendos piorados”.
Para Burti, a paralisação das reformas pode ter conseqüências imprevisíveis para o Brasil. “A sociedade precisa se mobilizar para exigir um compromisso de mudança dos poderes constituídos, em todos os níveis”, resumiu.
Burti pediu mais ação aos brasileiros. “Não podemos delegar, temos que assumir a nossa parcela de responsabilidade e não transferi-la para outra pessoa”, enfatizou. Ele acha que o momento sugere que o cidadão brasileiro participe do cenário político, conhecendo vários pontos de vista.
“As visões contraditórias de um fato são importantes para formar uma opinião consistente”, concluiu.