“A situação aqui é mais complicada porque envolve grupos bem organizados, que agem dentro das empresas”, diz o escocês Barry Wolfe, especialista da auditoria KPMG em detecção de fraudes. Essas “máfias” montam esquemas que envolvem desde a diretoria financeira até funcionários da portaria. “Há os que agem e os que fecham os olhos.”
A KPMG fez, pela segunda vez, uma pesquisa que revela os números da fraude corporativa no Brasil. Assim como foi detectado na pesquisa de 2000, o novo levantamento mostra que falsificação de documentos, roubo de ativos, notas de despesa e notas fiscais “frias” continuam sendo as atividades favoritas dos golpistas. A falsificação de balanços, fonte dos recentes escândalos nos Estados Unidos e Europa, vem no pé da lista brasileira.
A explicação está na motivação. Casos como Enron e WorldCom envolveram a manipulação de balanços porque a remuneração dos executivos está diretamente ligada ao desempenho da empresa e das ações. Números favoráveis (leia-se receitas infladas e/ou dívidas camufladas) fazem o preço da ação subir, o que leva a reboque os bônus do executivo.
A associação americana dos investigadores de fraudes (ACFE, na sigla em inglês) estima que as perdas com esse tipo de crime nos Estados Unidos cheguem US$ 600 bilhões por ano, ou cerca de 6% do faturamento das companhias americanas em 2002. A nova legislação corporativa, aprovada na esteira dos escândalos contábeis, coloca uma grande ênfase nos controles internos e dá mais proteção para os chamados “whistleblowers”, funcionários que denunciam os fraudadores.
Toda essa movimentação pode estar tendo reflexos nas companhias brasileiras, como mostra alguns dados da pesquisa da KPMG. O percentual de empresas ouvidas que consideram a fraude uma séria ameaça subiu de 40% para 50%. O próprio nível de retorno da pesquisa pode ser um indicador da maior conscientização dos executivos e empresários para esse tipo de problema: das cerca de mil empresas procuradas pela KPMG, 20% responderam, comparado a 15% em 2000.
“Há, sem dúvida, uma mudança de atitude”, diz Wolfe, um escocês que está há 16 anos no Brasil. Para ele, existe um processo de moralização das empresas, que acompanha a tendência de profissionalização da gestão.
No entanto, a impunidade continua grande. Só 38% dos casos (34% em 2000) chegam à Justiça e em 65% (77%) dos casos o funcionário envolvido faz um acordo com a empresa e pede demissão.
De qualquer forma, seja pela moralização das empresas brasileiras ou pela maior preocupação das multinacionais com leis corporativas mais rígidas, a detecção de fraude é um negócio em expansão.
Nelson Niero