Na última década os hábitos dos consumidores brasileiros sofreram mudanças significativas. A chegada do real resgatou, lá em 1994, a volta do sonho das compras planejadas de longo prazo. Depois, a animação com a força da nova moeda fez crescer as viagens ao exterior. Houve ainda a celebração do iogurte na mesa do consumidor de baixa renda e o crescimento da venda de dentaduras.
Em 1998 veio o boom dos aparelhos celulares com a privatização das companhias telefônicas. Paralelamente, aconteceu ainda a explosão dos e-mails e a febre dos sites e das compras pela Internet. Amostra da Fundação de Pesquisas Econômicas (Fipe) indica que a fatia que os custos com comunicação abocanham no orçamento das famílias paulistanas triplicou na última década: subiu de 0,09% para 3,68% dos gastos mensais.
No ano de 1999 o País viveu um susto, com a desvalorização de real. Foi tempo de pé no freio e previsões catastróficas tanto macro quanto microeconômicas, que acabaram não se concretizando. Mas o episódio frustrou quem planejava viajar para o exterior.
A disparada do dólar apagou também a onda dos artigos importados e fez minar a oferta dos produtos a R$ 1,99.
Corrida das lâmpadas
Logo depois, em 2001, veio o racionamento de energia e o fantasma do apagão. Foi a hora de o consumidor correr para comprar lâmpadas mais econômicas e duráveis. Alguns chegaram até a suspender o uso do microondas.
Apesar de toda a economia, os preços que mais salgaram para o consumidor nos últimos quatro anos foram justamente os de contratos administrados pelo governo, como água e luz, segundo o coordenador do IPC da Fipe, Paulo Picchetti. “A inflação dos últimos anos foi de preços públicos”, afirmou.
Nos anos 90 cresceram também os gastos com habitação, cujo peso no orçamento passou de 26,51% para 32,79%. Mas começamos a gastar menos com comida, uma despesa que encolheu de 30,80% para 22,73% do total dispendido desde 1990. Apenas os gastos com alimentos in natura mantiveram-se estáveis em 4%. Até por conta disso, a rede de supermercados Barateiro constatou a preferência por verduras, frutas e legumes, em uma pequena pesquisa que fez para descobrir os hábitos de consumo de famílias paulistanas das classes C, D e E.
Já segundo a Fipe, outros gastos que aumentaram no orçamento foram transporte, que passou de 12,96% para 16,03% e saúde, de 4,5% para 7% das despesas totais.
Roupas ficam de lado
A pesquisa da Fipe ainda mostra que o vestuário perdeu espaço no bolso do consumidor. As roupas passaram a ser compradas em liquidações ou datas especiais. As marcas foram substiuídas pelo preço.
A balconista da loja de roupas infantis Colucci Bambini do Shopping Paulista, Gildete dos Santos Lago, sente os efeitos da pesquisa na prática. “A maior parte dos clientes leva uma peça e normalmente é para presentear alguém”, diz. Na loja O Boticário do Conjunto Nacional as colônias e cremes mais vendidos também são, em geral, para presente.
Sandra Silva