A economia informal, que fica fora do alcance das pesquisas do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), e a facilidade de crédito são as explicações dos economistas para uma contradição revelada no cruzamento de dados do Censo 2000: o consumo de bens duráveis aumentou no País, mas não houve aumento na renda dos brasileiros. “É ilógico. Ou não se consumiu tanto ou não se ganhou tão pouco”, reclamou o presidente Fernando Henrique Cardoso.
Descontado o tom irônico do presidente, o “contra-senso” existe: os dados apontam, por exemplo, um aumento de 174,5% no número de domicílios que possuem telefone fixo. Já as residências que possuem automóveis – um produto ainda mais caro do que o telefone – aumentaram em 82,1%. A presença da máquina de lavar também teve crescimento expressivo: 62,3% do número de residências que já tinham o aparelho.
A renda, por outro lado, continua baixa. Mais da metade (51%) das pessoas que tinham um emprego em 2000 ganhavam menos do que dois salários mínimos. Dos brasileiros desse grupo, 24,4% não ganhavam mais do que um salário. Aqueles que recebiam mais do que 20 salários mínimos não passavam de 2,6% dos empregados.
Telefones: a oferta cresceu
Os economistas e consultores da área só são unânimes em um ponto: o número de telefones aumentou porque a oferta cresceu muito e os preços caíram. “Se antes havia carência, hoje há excesso”, diz o economista Antonio Corrêa de Lacerda, presidente da Sociedade Brasileira de Estudos de Empresas Transnacionais e da Globalização (Sobeet). Mas todos se batem na hora de tentar entender a equação.
Falta de informação sobre a informalidade
Para o economista Gustavo Lemos, vice-presidente da consultoria Boucinhas e Campos, a falta de informações precisas sobre renda informal poderia explicar a aparente falta de lógica. “Ela não está bem identificada. Se um casal tem um filho que trabalha informalmente e ganha R$ 200, dá para pagar a prestação da televisão”, disse.
Outra explicação é a facilidade de crédito oferecida no comércio, o que permite que quem tem pouco dinheiro compre os produto. “Apesar das altas taxas de juros, as formas de crediário se multiplicaram. É um apelo ao consumo”.
O economista José Augusto Arantes Savasini, diretor da consultoria Rosemberg Associados, diz que não há incoerência entre o aumento do consumo de alguns produtos e a queda na renda. “Há uma tendência de substituição. Em 10 anos, surgiram novos produtos e houve queda nos preços de outros. O consumidor deixa de comprar um produto para ficar com outro”.
Para Lacerda, a sensação de aumento no consumo é, em parte, ilusória. “A base de cálculo para o aumento é muito pequena. Se houve aumento de consumo, não significa que todos estão comprando”.