O professor da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) Ladislau Dowbor é doutor em Ciências Econômicas e consultor da Organização das Nações Unidas (ONU) e de vários governos em gestão econômica descentralizada. Nos anos 1960, dividiu o comando da Vanguarda Popular Revolucionária (VPR) com Carlos Lamarca, lutando contra a ditadura e o AI-5 no Brasil. Formou-se em economia política na Universidade de Lausanne, na Suíça, e obteve o doutorado na Escola Central de Planejamento e Estatística de Varsóvia, na Polônia.
Autor e co-autor de cerca de 40 livros, hoje leciona no departamento de pós-graduação da PUC-SP. Em sua carreira, já viveu sérias recessões e crises econômicas, como a da Rússia, em 1998 e a das empresas pontocom, em 2001. A seguir os principais pontos da entrevista dele ao Diário do Comércio sobre a atual turbulência econômica.
Crise sem precedentes – “O grande problema dos sistemas financeiros atualmente é que, a cada 60 transações realizadas diariamente entre bancos do mundo todo, apenas uma é resultado de bens de produção e serviços. As outras 59 não passam de pura especulação.”
Para o especialista, a possibilidade de transações financeiras com moeda virtual, a facilidade de se transferir quantias vultosas da Tailândia para o Banco da Califórnia em minutos, por exemplo, favorecem o crescimento da cultura da especulação e a possibilidade de se ganhar muito dinheiro sem produzir nada concretamente. “Esse é o grande problema da crise, e ninguém sabe seu tamanho.”
Raízes do problema – O déficit na balança comercial dos Estados Unidos, de US$ 1 trilhão, o corte de impostos, os grandes gastos com as guerras no Iraque e no Afeganistão e o estímulo ao endividamento excessivo da população norte-americana desencadearam a crise, de acordo com o professor. “Não houve produção concreta. Em vez disso, o sistema se concentrou em ações especulativas, em que dinheiro gera dinheiro, e sem análise econômica antes de investir. Foi abandonada a lógica de que dinheiro gera produção, que gera dinheiro.”
Depois do susto – O desenrolar da crise e a ascensão ou não de novos pólos econômicos mundiais vai depender da reação dos agentes que contribuem para o processo, segundo Dowbor. “É o efeito comportamento de manada: tem muita gente, assustada com o que está acontecendo, que resolveu realizar prejuízos; não quer mais investir. Daqui a pouco, outros investidores vão achar que os papéis estão baratos demais e vão aplicar dinheiro. E, mais uma vez, o efeito manada vai fazer as bolsas subirem.”
Escassez de crédito – Como o crédito consignado é a forma mais popular de empréstimo no Brasil, o País não deve sofrer esse tipo de restrição, segundo o economista. “Os assalariados e produtores rurais usam o crédito consignado para compras; e o endividamento brasileiro ainda é de cerca de metade dos índices de países europeus e dos Estados Unidos.”
Bancos no Brasil – Por aqui, os bancos não sofrem qualquer risco de se descapitalizar, de acordo com Dowbor. “No Brasil, o setor é cartelizado, com taxas que ultrapassam 150% ao ano e, como grande parte do crédito é consignado, eles não correm riscos maiores de ter prejuízo com inadimplência”. “O mesmo banco que cobra taxas de juros absurdas por aqui, na Europa deixa o cliente usar o cheque especial por seis meses de graça. Por isso, ainda temos gordura excessiva a ser gasta antes de os bancos brasileiros sentirem qualquer reflexo da crise.”
Estatização dos bancos europeus – “Nessa situação, se o Estado não intervir, toda a economia vem abaixo. Não tem jeito. O injusto é que são salvos os especuladores, que causaram toda a crise. O resgate das empresas financeiras sai do bolso do cidadão comum.”
Dowbor defende uma regulamentação mais severa, para que a especulação seja dificultada e a produção, privilegiada. “O sistema financeiro é estatal, já que é regulado pelos bancos centrais, e a sua intermediação deve ser organizada com objetivos de desenvolvimento econômico e de interesses sociais.”