Juros ficam em 26,5% e manutenção causa reação negativa de empresários
Não adiantaram as pressões de empresas nem os palpites de integrantes do próprio governo. O Banco Central decidiu nesta quarta-feira (21) manter a taxa básica de juros, Selic, nos 26,5% ao ano pelo quarto mês consecutivo. Também não adotou nenhum viés de baixa. Um sinal esperado por boa parte do mercado de que uma redução dos juros poderia estar a caminho. Com o viés de baixa, haveria espaço para a Selic cair antes mesmo da próxima reunião do Copom, prevista para os dias 17 e 18 de junho.
Uma vez decidida a manutenção, os empresários foram os primeiros a reagir. Entre alguns que no momento da divulgação estavam reunidos com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva em Brasília, a reação foi de indignação, surpresa e decepção. Caso de Antônio Ermírio de Moraes, que chegou a pedir, em tom de brincadeira, uma aspirina para poder digerir a notícia.
Há também os que classificaram a decisão de “covardia” do Banco Central em relação à população brasileira. Afirmação feita por Synésio Batista da Costa, presidente da Abrinq, associação que reúne os fabricantes de brinquedos. Synésio Batista é um dos aliados do presidente Lula.
Batista, que também é presidente do Conselho Regional de Economia de São Paulo, Corecon, foi ainda mais longe. Além de dizer-se frustrado com a decisão, afirmou que a manutenção da Selic no patamar atual vai significar para a população o distanciamento, cada vez maior, do emprego e do consumo.
Resultado negativo – Os empresários dizem que os juros no patamar atual podem comprometer o segundo semestre do ano, período para o qual se aguardava uma retomada do crescimento da economia. “Maio deve ser mais um mês de resultado negativo para as vendas. A esperança era de que o BC enviasse um sinal de que estava interessado no desenvolvimento econômico, com a redução ainda que simbólica da taxa Selic, o que não aconteceu. O temor agora é de que não haja tempo para salvar o segundo semestre do ano”, diz o economista Emílio Alfieri, da Associação Comercial de São Paulo, ACSP.
De acordo com dados da ACSP, até o dia 19 as consultas ao Serviço Central de Proteção ao Crédito (que serve de sinalizador das vendas a prazo no varejo) se mantinham em ritmo de queda. No mês, na comparação com igual período do ano passado, a retração chega a 2,5%. As consultas ao Usecheque tiveram desempenho ainda pior: até o dia 19 estavam caindo 4,1%. “Logo após o Dia das Mães o Usecheque, que serve para sinalizar as vendas a vista, despencaram”, diz Emílio Alfieri.
Efeito contrário – O Banco Central justificou a manutenção da Selic como uma forma de manter a inflação sob controle. “Há sinais de que a política monetária começa a obter resultados no combate à inflação. O Copom avalia que a consolidação da queda da inflação depende da manutenção desse esforço. Diante disso, o Copom decidiu por unanimidade manter a taxa Selic em 26,5% sem viés”, diz a nota divulgada pelo Banco Central.
Mas a preocupação com a inflação, na opinião de alguns analistas, começa a ser excessiva. “O pior é que, ao utilizar os juros como instrumento para impedir o avanço da inflação, o Banco Central tem gerado outros problemas, como o permanente custo fiscal e a instabilidade na economia, criada com o aumento da dívida pública”, diz o economista Joaquim Eloi Cirne de Toledo, vice-presidente de Finanças do banco Nossa Caixa.
Para Walter Machado de Barros, presidente da seção paulista do Instituto Brasileiro de Executivos de Finanças, Ibef-SP, a manutenção da taxa Selic pode acabar tendo um efeito contrário do desejado pelo Banco Central.
Barros diz que as despesas financeiras das empresas jurídicas, o chamado custo de produção, não param de crescer exatamente por causa do pagamento de juros. Essas empresas podem ser obrigadas a transferir a elevação do custo financeiro para os preços, gerando efeitos inflacionários. “A partir de um determinado patamar, as taxas de juros começam a aumentar a inflação ao invés de reduzi-la”, diz.
Autonomia – Na opinião de Adolpho Nardy filho, diretor do Banco Cruzeiro do Sul, a postura de não ceder às pressões para a redução dos juros e manter a taxa Selic no mesmo patamar foi vista ainda pelo mercado como um sinal de que o Banco Central caminha para a total independência. “A atitude mostrou que ele continuará trabalhando em prol de seu foco, que é impedir o avanço da inflação”, diz.
É um “saque ao setor produtivo”, diz Guilherme Afif
Na avaliação do presidente da Federação das Associações Comerciais e Empresariais do Estado de São Paulo, Facesp, e da Associação Comercial de São Paulo, ACSP, Guilherme Afif Domingos, a decisão do Comitê de Política Monetária, Copom, de manter a taxa básica de juros, a Selic, em 26,5% sem viés representa a “continuação do saque no setor produtivo”.
Segundo Afif, por uma questão de coerência o Copom, reconhecendo que a inflação está em queda, deveria ter emitido pelo menos um sinal de baixa dos juros.
O presidente da ACSP explica que o cenário já não é favorável, pois, de acordo com os indicadores da ACSP, o movimento do varejo vinha caindo. Em abril, a queda de consultas foi de 8,5% no SCPC e de 6,5% no UseCheque. Nos primeiros 20 dias úteis deste mês, a queda nos dois sistemas foi de 4% em relação ao mesmo período do ano passado.
O presidente da ACSP disse ainda que o debate sobre a MP 107/03 no Senado produzirá outro “saque tributário” com a elevação na alíquota do Cofins incidente sobre as operações do mercado financeiro de 3% para 4%. “O primeiro semestre já está perdido para o comércio e a expectativa para o segundo é preocupante por conta dos juros altos, do aumento da carga tributária e das tarifas, que resultarão em mais desemprego e retração econômica”. Ontem, Afif havia dito que a redução seria possível com base nos indicadores do mercado.
Fiesp diz que houve excesso de conservadorismo
O presidente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo, Fiesp, Horacio Lafer Piva, divulgou nota ontem à tarde na qual classifica de “excesso de conservadorismo” a postura do Banco Central, BC, de manter a taxa básica de juros, Selic, nos atuais 26,5% ao ano. “O Banco Central está impondo, mais uma vez, um custo desnecessário à produção e ao mercado de trabalho”.
Segundo Piva, juros elevados e crédito escasso e caro empobrecem o País, comprometendo a produção num horizonte que já inclui os primeiros meses de 2004. Não se justifica esse excesso de conservadorismo”, afirmou o presidente da Fiesp na nota.
Sinais evidentes – Segundo ele, a desinflação e a reversão das expectativas das taxas futuras são evidentes, mostradas inclusive pelo baixo patamar da inflação de bens não-comercializáveis. Para o presidente da Fiesp, a manutenção dos juros nominais em um contexto de queda de inflação intensifica a desinflação e as chances de o índice do ano que vem ficar dentro da meta.
“A nosso ver, a credibilidade do Banco Central não deve ser associada exclusivamente ao cumprimento da meta de inflação do ano-calendário de 2003. Aliás, entendemos que, com o passar dos meses, os esforços devem se concentrar cada vez mais na meta estabelecida para o ano de 2004”, disse. “A boa prática de política monetária recomenda que se dê mais valor às perspectivas de inflação futura e menos aos índices passados”, diz.
Empresários: misto de surpresa e indignação
Pelo menos três, dentre os oito grandes empresários que estiveram reunidos ontem em Brasília com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, ficaram divididos em relação à decisão do Copom de manter os juros em 26,5% ao ano. Enquanto os presidentes da companhia Vale do Rio Doce, Roger Agnelli, e do Grupo Gerdau, Jorge Gerdau, aprovaram a decisão do Banco Central, o empresário Antônio Ermírio de Moraes, do Grupo Votorantim, criticou a falta uma tendência de queda da taxa Selic.
Roger Agnelli acha que o Copom agiu corretamente porque o País precisa construir credibilidade no exterior. “Todos têm o desejo de que os juros baixem, mas também temos de ter prudência”, disse o presidente da Vale.
Para Jorge Gerdau, “o Copom tem a responsabilidade de consolidar uma política antiinflacionária e, certamente, está buscando a redução dos juros.”, afirmou.
“Decepcionado” – Antônio Ermírio de Moraes disse que a decisão deveria vir acompanhada de um viés de baixa. “Se o ministro (da Fazenda, Antonio Palocci) tivesse informado sobre essa decisão durante o encontro com o presidente eu teria pedido uma caixa de aspirina”, disse. Para Antônio Ermírio, “se houvesse boa vontade”, os juros teriam baixado. “Confesso que estou decepcionado”, afirmou.
Segundo o empresário da Votorantim, sua reação não se justifica por um problema pessoal em suas empresas. “Não é o meu caso ou da minha empresa, mas da maioria dos empresários do País que têm dívidas”, disse Ermírio. O empresário considera que o Brasil está parado e precisa voltar a crescer. “Não é que eu quero que baixe nem 1 nem 2 pontos mas era necessário pelo menos um viés de baixa.”
Quem também não gostou da decisão do Copom foi Synésio Batista da Costa, presidente da Abrinq, associação que reúne os fabricantes de brinquedos. Para ele, o resultado foi “péssimo”e reflete a posição de “covardia” do Banco Central.







