Falta coordenação e gestão competentes
A crise do setor aéreo, que começou com a queda do avião da Gol há cerca de dez meses na selva amazônica, e atingiu seu ápice com a tragédia da aeronave da TAM, revela claramente que existe grave problema de coordenação e de gestão no tocante à situação verificada aos aeroportos brasileiros. Já seria muito preocupante se isso ocorresse apenas com relação ao transporte aéreo, mas, na verdade, isso retrata apenas o estado generalizado de descoordenação e descontrole que vigora em relação à toda a infra estrutura do país.
À inapetência do presidente em administrar, se junta à deficiência da estrutura da administração pública e a incompetência de grande parte dos nomeados para cargos relevantes no governo.
Poder-se-ia acrescentar, ainda, o viés ideológico que tem norteado muitas decisões, com o que se configura um quadro de baixa eficiência funcional do governo, naquilo que é fundamental para o crescimento sustentado do país: a modernização e ampliação da infra estrutura.
A forma do presidente da República tratar dos “ problemas desagradáveis “, cuja decisão envolve mexer com algum companheiro ou aliado, é a de deixar “ ao tempo para decidir”, do que resulta, muitas vezes, como no caso da crise aérea, em graves conseqüências para o país.
A estrutura de governo montada por Lula, com 37 ministérios, multiplicidade de órgãos que cuidam de muitos assuntos, somada a uma legislação que não oferece segurança aos investidores, já representaria grande dificuldade de coordenação e de gestão, o que se agrava com a nomeação de pessoas despreparadas, e/ou ideologicamente comprometidas, valendo-se de cargos de confiança, atualmente mais de 22 mil, além de diretorias de estatais, para acomodar companheiros e aliados. Nomeações no Banco do Brasil e na Caixa Federal, como as das duas diretorias criadas para acomodar políticos, podem provocar, como provocaram no passado, alguns problemas para essas instituições, mas não chegam a afetá-las profundamente, graças ao excelente corpo técnico que possuem e sua posição no mercado.
A Petrobrás, por seu porte, e por ser monopolista, suporta um pouco mais de ingerências dessa natureza, desde que não se loteie suas áreas decisórias mais importantes. Adotar esse mesmo critério de nomeações, no entanto, em áreas em que o conhecimento técnico ou a experiência administrativa é fundamental, até para angariar a confiança dos agentes econômicos, normalmente conduzem a situações como a da crise aérea, embora sem a mesma visibilidade.
A calamidade das estradas, nas quais morrem mais de 50 mil pessoas por ano, mas não causa comoção porque são milhares de eventos isolados. As deficiências graves dos portos e a probabilidade de faltar energia se a economia continuar crescendo, tudo isso faz parte do mesmo cenário de falta de coordenação e de gestão que o lançamento do PAC em nada deverá mudar.
O viés ideológico impede a privatização e dificulta as parcerias com o setor privado, o que torna pouco provável que as deficiências da infra estrutura sejam superadas no curto ou no médio prazos. As ações ou omissões do INCRA, da FUNAI, do IBAMA e outros órgãos dominados por pessoas comprometidas ideologicamente, afeta o direito de propriedade, enquanto a política racista do ministério de Igualdade Racial compromete os direitos individuais.
A política de segurança, cuja maior ação foi a de procurar desarmar os cidadãos de bem e reduzir a punição dos criminosos, deixa a população sitiada e intranqüila e afeta também os negócios. È nesse contexto, que se deve analisar a crise aérea, pois sua solução exige mudanças organizacionais e de pessoas.
A substituição do Ministro da Defesa, necessária e tardia, representa uma confissão de culpa do presidente, mas é insuficiente para que se possa adotar medidas de curto, médio e longo prazos, baseadas em um planejamento estratégico do setor e com recursos suficientes para os vultosos investimentos que são necessários. Seguramente teremos algumas medidas simplistas, como as que foram anunciadas pelo presidente, que podem aumentar a segurança dos vôos saídos de Congonhas, às custas do caos em Cumbica e das horas perdidas no trânsito da Marginal.
O cidadão que utiliza o transporte aéreo, terá que optar entre segurança e conforto, não podendo usufruir plenamente da prosperidade alardeada pelo ministro Mantega. Talvez um fator atenuante das dificuldades venha a ser dado pelo próprio mercado, pois as medidas anunciadas deverão resultar em aumento dos preços das passagens, reduzindo a demanda.
São Paulo seguramente sofrerá do ponto de vista econômico com o esvaziamento de Congonhas, que parece inevitável no curto prazo, mas é preciso que se vislumbre qual é o horizonte de médio e longo prazos que as medidas governamentais vão sinalizar para todos os agentes econômicos atingidos pelas medidas, e também, para toda a população.
O grande responsável pela crise aérea, o presidente Lula, transferiu os ônus da solução para Nelson Jobin. E em relação aos demais setores da economia, quem responderá?
Marcel Domingos Solimeo é superintendente de Economia da ACSP (Associação Comercial de São Paulo)





