Executivos que ganham até mesmo sem trabalhar
Acordos prevendo um período de quarentena para executivos quando deixam uma empresa são tão importantes para a companhia quanto para o profissional. No Brasil, contratos prevendo quarentena para executivos duram normalmente um ano, período em que o profissional não pode trabalhar para outras empresas do mesmo setor. Como nada é de graça, as empresas arcam com o ônus de mantê-lo inativo. E eles recebem sem trabalhar.
Um dos casos mais célebres de quarentena no País envolveu o fim de um casamento de 30 anos entre José Bonifácio Sobrinho, o Boni, e a Rede Globo. Substituído em 1997 por Marluci Dias da Silva, Boni assinou um contrato para ser consultor da emissora por quatro anos, com mais dois anos de quarentena, que termina no início do ano que vem. O salário que Boni receberia para não trabalhar, ou atuar como “consultor”, estaria em torno de R$ 1 milhão por mês. Até hoje, mesmo assediado por emissoras como a Rede Bandeirantes e SBT, Boni vem cumprindo o compromisso de se manter fora do mercado.
Outro caso envolve uma disputa acirrada entre os dois líderes do setor supermercadista do País – o grupo francês Carrefour e o Pão de Açúcar. Após 25 anos no Carrefour, Jean Duboc, ex-presidente do grupo no Brasil, deixou a empresa em 2000. Seu contrato previa uma quarentena em que ele não poderia atuar em nenhuma empresa de varejo. No período de transição, Duboc ficou pouco mais de seis meses na TAM. No ano passado, acertou sua volta ao varejo, desta vez à frente do Extra, do grupo Pão de Açúcar. Até hoje, a chegada de Duboc ao Extra não foi anunciada. O motivo é a tentativa do Carrefour de impedir, na Justiça, o reforço do concorrente. Procurado por este jornal, o Carrefour não quis se pronunciar.
Contratos prevendo quarentena – diferentemente do que ocorre em outros países – não têm força legal no Brasil. Mesmo assim, são religiosamente cumpridos. Não é apenas a questão ética que está por trás da decisão de levar o acordo até o fim, mas uma visão planejada da própria trajetória profissional.
Karin Parodi, sócia da Career Center, empresa de recolocação de executivos, diz que os mesmos cuidados ao entrar em uma empresa o profissional deve ter ao deixá-la. “É claro que um executivo pode não aceitar a quarentena proposta pela empresa, no entanto, ele deve antes levar uma série de fatores em consideração”, diz Karin.
Algumas perguntas, segundo a consultora, devem ser respondidas antes da decisão: ir para o concorrente vai ser bom para minha carreira? O concorrente está interessado no profissional ou nas informações que possui? Vou ser descartado em uma segunda etapa? “Às vezes ir direto para um concorrente causa tanto ruído que pode prejudicar a carreira do profissional a médio e longo prazos”, diz.
Nos Estados Unidos, além de os contratos serem legais, a exigência de quarentena para executivos é uma prática muito mais antiga e comum do que no Brasil. Paul Levinson, sócio da Korn/Ferry, empresa de recrutamento de executivos, diz que é raro um profissional americano não aceitar um contrato de quarentena quando deixa uma empresa. “Envolve toda uma questão ética, que é levada muito a sério e que lá está prevista na lei”, diz. Nos Estados Unidos, segundo ele, basta que uma empresa tire muitos profissionais de outra – mesmo não sendo em postos-chaves – para que possa ser processada por espionagem industrial.
Acordo verbal
Depois de quatro anos como presidente do Boston Capital – braço de investimentos do Bank Boston – o economista Alberto Tamer termina este mês uma quarentena de um ano. Responsável pela montagem da primeira operação de “private equity” do Brasil, Tamer, ao deixar o banco, fez um acordo que o impediu de trabalhar no mesmo segmento. “Como sempre tive um bom relacionamento no banco, achei razoável e fiz um acordo verbal, que estou cumprindo até o fim”, diz.
Neste período, em que foi remunerado como consultor, Alberto Tamer recebeu três convites para atuar em outras instituições, mas recusou todas. “No meu caso não existia nenhum impedimento legal, mas descumpri-lo não seria bom para a minha reputação.”







