O sistema político brasileiro que permitiu a ascensão de um candidato do Prona à Câmara dos Deputados com míseros 275 votos é um sinal claro que a nossa democracia ainda está longe de adquirir a maturidade a que o sistema se propõe. Os jogos de interesse e as trocas de favores que ocorrem nos bastidores da política também dão os mesmos sinais de que o modelo ainda não está adequado para garantir a representatividade do povo na condução do país. E, talvez pior ainda, é a falta de preparo de grande parcela da população em exercer seus direitos e deveres como cidadão. Um povo que vende seu voto por um favor, por interesses próprios ou se entrega às promessas pouco críveis feitas pelos candidatos, mostra que o país também não está pronto para escolher seus governantes.
Com muita freqüência tenho escutado manifestações contrárias à forma como o processo político é conduzido no país. Ouço muitas vezes que o voto não deveria ser obrigatório, ou que é melhor anular o voto do que eleger estes políticos que são todos ?farinha do mesmo saco?. E eu, devo confessar, sinto às vezes dificuldade em procurar não fazer coro com estas vozes no sentido de justificar minha ignorância e falta de interesse político nesta época de eleições.
Bem, porquê, afinal de contas, estou tocando neste assunto, dentro da minha coluna? Porque vejo uma grande similaridade com o desenvolvimento do empreendedorismo no país.
Fernando Dolabela, um dos grandes impulsionadores da cultura empreendedora, diz em seu livro ?Oficina do Empreendedor? que as pessoas ainda estão presas à idéia do ?emprego? tradicional, com carteira registrada, sob o regime da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT).
A verdade, segundo Dolabela, é que existem alternativas à este regime de trabalho e que são pouco exploradas porque o brasileiro ainda não descobriu que ele não precisa de um emprego, ele pode perfeitamente procurar trabalho, o que são coisas muito diferentes. A livre iniciativa, seja na prestação de serviços como um profissional autônomo, seja através da criação de uma MPE (Micro ou Pequena Empresa), representa hoje uma das principais alternativas que o governo vem fomentando como estratégia de combate ao desemprego.
Acontece que, como na política, não existe uma cultura apropriada para acomodar estes novos princípios, estes novos paradigmas. O que vemos são poucas iniciativas isoladas, algumas propostas advindas de iniciativas do Estado, mas todas demasiadamente tímidas e mal estruturadas em relação à potencialidade que o país representa em termos de novas oportunidades de negócios.
Uma cultura que, por um lado, inibe o comércio paralelo dentro das organizações, sejam elas escolas ou empresas, repartições ou comunidades, e por outro lado, possui uma população que resiste ao novo, que é muito sensível a inovações, e não cultiva o hábito de experimentar um novo produto, uma nova marca, só dificulta o desenvolvimento desta cultura. O empreendedor brasileiro é um verdadeiro herói por conseguir fazer seu empreendimento sobressair em meio à tantas dificuldades impostas pelo mercado, pelos concorrentes, pelas instituições financeiras, pelos fornecedores e também pelo governo.
Sob o ponto de vista do nível de maturidade e preparo das pessoas, também há um longo caminho a percorrer. O profissional ainda precisa aprender a ser pró-ativo, aprender a ler o ambiente que o rodeia, ser auto-suficiente, saber fazer alianças, ampliar suas competências, dentre outras características imprescindíveis para se tornar um empreendedor de sucesso.
Este processo de transformação não é simples e tampouco espontâneo. É preciso um esforço para, não só plantar a sementinha do empreendedor nas universidades, e como defende Dolabela, no ensino médio também, como igualmente regar, regar e regar para que floresçam com mais perspectivas de sucesso do que os atuais ?empregados?.
Qualquer um que vê o perfil do trabalhador típico brasileiro é capaz de imaginar: É perda de tempo, o brasileiro não vai adquirir estas características, ele não serve para ser empreendedor. A ele, eu digo o mesmo que diria àquele que acha que o brasileiro não sabe votar: Se ele não começar agora, e incorporar o erro em seu processo de aprendizado, ele jamais se desenvolverá. São as pequenas mudanças de hoje que se transformarão em enormes diferenças no futuro.
Um desvio de apenas 3 graus no percurso de um trajeto de 10 centímetros é muito diferente de um desvio com os mesmos 3 graus ao transcorrer kilometros de distância. Tenho plena convicção que o amadurecimento de uma cultura, seja ela empreendedora ou política, só acontece se assumirmos que os erros e as dificuldades fazem parte deste processo evolutivo. São pequenos avanços, mas que perceberemos como fundamentais quando olharmos para trás, daqui a duas ou três gerações, vivendo uma economia basicamente calcada em pequenos grandes empreendimentos.