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Crédito: herói e vilão das finanças

Aumenta a cada dia o número de empresas que contratam consultores em finanças pessoais para ministrar palestras sobre saúde financeira e controle de gastos para seus funcionários. A constatação é da especialista em psicologia organizacional e do trabalho e consultora gaúcha Márcia Tolotti. A preocupação com a administração dos recursos familiares e com o gasto do dinheiro é positiva, mas a demanda atual também revela o lado negativo do consumo excessivo, diz a especialista. O aumento do crédito é algo bom, mas seu uso deve ser criterioso, alerta.

“Temos muitos casos de devedores que chegaram a fazer acordo de demissão com a empresa para receber seus direitos apenas para quitar prestações de empréstimos e dívidas acumuladas em carnês, cheque especial e cartão de crédito”, afirma.

Autora do livro “As armadilhas do consumo”, a psicóloga classifica os devedores em diferentes tipos. Um é o passivo, que entrou em uma ciranda de dívidas depois da morte de um membro da família ou de imprevistos como o desemprego, separação ou acidentes. “Essas pessoas são as que saem com mais facilidade do problema”, diz. Esse endividamento pode ser considerado “normal”.

Ávidos por carnês – A segunda categoria de devedores, os ativos, faz exageros maiores no gastos e articula estratégias de vida e controle financeiro em prestações. São pessoas que, antes de quitarem um carnê, já estão pensando o que comprarão para aproveitar o valor que deixará de ser gasto mensalmente com o fim daquela obrigação.

Os devedores ativos já estão próximos do limite da descompensação financeira e podem, inclusive, navegar dentro da categoria de “sobreendividados” , esses, sim, já considerados insolventes, mesmo que reconhecidos como de boa-fé.

“Essas pessoas são aquelas que devem no cheque especial, parcelam a fatura do cartão de crédito e pedem dinheiro emprestado para amigos e família. São os que estão mais próximos de deixar o emprego para receber as garantias e quitar dívidas.

Mas, certamente, voltarão a dever”, observa a psicanalista. Esses estão mais próximos dos devedores afetivos, os que não conseguem viver sem dívidas. Não importa o quanto ganhem, nunca vão conseguir guardar dinheiro.

Controle emocional – À exceção do devedor passivo, o controle financeiro dos demais passa necessariamente pelo emocional, segundo a psicanalista. “Estamos vivendo uma era de inflação das necessidades. Da pessoa que tem bastante e ainda precisa de mais. A conseqüência é a dívida”, afirma Márcia.

Nas palestras ou acompanhamentos que ela faz para trabalhadores e seus parentes, a consultora recomenda o estabelecimento de diretrizes e metas. Para isso, lança mão de cadernetas em que a pessoa anota absolutamente tudo o que gasta. “Em um dos cursos, um funcionário descobriu que o controle de gastos mostrou que mais de 10% de seu salário simplesmente desapareciam com pequenos desperdícios de dinheiro”, conta.

O controle financeiro, segundo Márcia, ainda inclui desfazer mitos a respeito da cultura de endividamento no País como, por exemplo, “brasileiro só consegue comprar alguma coisa com carnê” ou que não sabe guardar dinheiro. “Precisamos começar a tratar da saúde financeira considerando o futuro. Isso significa planejar e identificar o que é consumo consciente e responsável – algo fundamental para a sociedade – e o que é consumismo doentio, desequilibrado. As empresas estão descobrindo isso e percebendo que um colaborador sem preocupações com dívidas falta menos e concentra-se mais.”

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