As críticas à decisão do Comitê de Política Monetária (Copom), do Banco Central, de manter os juros inalterados foi, desta vez, além do comércio e da indústria. A oposição política do governo engrosssou o coro dos descontentes. O PFL, por meio do líder do partido na Cãmara, deputado José Carlos Aleluia (BA), disse que, com a manutenção da taxa, o Banco Central nada mais faz do que reconhecer que o cenário do País não anda tão favorável. Para ele, os juros brasileiros não estão bem dosados.
O líder do PSDB no Senado, Arthur Virgílio (AM), também reagiu de pronto à decisão do governo de não mexer nos juros. Classificou de absurda a opção do Copom e considerou que o governo jogou água fria no crescimento da economia.
Para o economista Marcel Solimeo, diretor do Instituto de Economia Gastão Vidigal da Associação Comercial de São Paulo, o Copom perdeu mais uma boa oportunidade de reduzir os juros, sem apresentar um motivo real.
Muda o discurso – “O próprio Copom vive dizendo que os juros são fixados de acordo com a evolução dos preços, que continuam apontando para baixo. Agora, ele muda o discurso e diz que a instabilidade externa não permitiu um corte. Dessa forma nunca teremos um cenário ideal para reduções”, diz o economista.
Segundo Solimeo, o comportamento do Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), indicador da inflação, está dentro da meta fixada para o ano. Além disso, como a demanda ainda é fraca, há pouco espaço para o repasse de preços para o consumidor. “Mesmo que haja um aumento dos juros nos Estados Unidos, isso já era previsto há meses”, diz.
Histeria – O presidente da Associação Comercial de São Paulo, Guilherme Afif Domingos, concorda em que a atitude do Copom mostrou uma cautela excessiva. Para ele, tão importante quanto reduzir os juros é acabar com a histeria do mercado financeiro em torno da taxa. Em sua avaliação, se a Selic é importante para o governo, para as empresas e pessoas físicas são os juros na ponta (aqueles pagos nos financiamentos) que interessam. E esses, segundo Afif, estão subindo em função do aumento da incerteza e da insegurança jurídica provocada pelas invasões de propriedades e desrespeito à lei”, diz.
A Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) também não gostou do que ouviu. Por meio de uma nota, divulgada após o anúncio da decisão, a Fiesp diz que a manutenção dos juros em 16% ao ano por mais um mês deve provocar nova deterioração das expectativas de investidores e consumidores.
“Reconhecemos que esta reunião se realizou em ambiente de elevada incerterza. Mas combater esses movimentos com política monetária é gerar perda desnecessária de produto e emprego.
Com essa postura cautelosa, o Banco Central só reforça a percepção de que, para o governo e nas condições atuais, não podemos crescer muito mais do que 3% este ano”, afirmou Horácio Lafer Piva, presidente da Federação das Indústrias de São Paulo.
Em nota divulgada à imprensa, logo após o término da reunião, o Comitê justificou a manutenção como necessária, diante do cenário de instabilidade mundial, apesar de a inflação continuar em queda. A decisão, no entanto, não foi unânime. Dos nove membros que formam o Copom, três votaram pela redução da taxa em 0,25 ponto porcentual.