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Contas externas têm superávit recorde

Guarulhos, 25 de outubro de 2002

Depois de registrar um tímido superávit em agosto, as transações do Brasil com o Exterior, que compõem o saldo em conta corrente, tiveram, em setembro, um resultado positivo de US$ 1,2 bilhão, o melhor desempenho desde 1947, quando o dado começou a ser apurado. O número reflete a diminuição da dependência externa do País e, na avaliação do diretor de Política Econômica do Banco Central, Ilan Goldfajn, pode ajudar o País a reverter o atual cenário desfavorável.

Esse ajuste nas contas externas é o trunfo do governo para tentar recuperar a credibilidade diante da crise de confiança que debilitou a economia brasileira este ano. Mas a retomada da confiança deverá ser gradual. Atualmente, apesar dos sucessivos resultados positivos na conta corrente, o fluxo de capital para o Brasil ainda está bastante retraído. Mesmo com o empréstimo de US$ 3 bilhões do Fundo Monetário Internacional (FMI) e do ingresso de US$ 1,2 bilhão de investimentos estrangeiros diretos, em setembro, faltou dólar no mercado. Isso fez a cotação da moeda estrangeira subir.

A conta de capitais fechou o mês passado com um saldo negativo de US$ 614 milhões. Uma fonte de pressão nessa conta são os pagamentos de dívidas de empresas brasileiras no exterior. A taxa de rolagem desses compromissos, que costumava ser de 100% em épocas normais, foi de 44% em setembro.

“Países tendem a recuperar a confiança quando há um ajuste importante das contas externas. É um sinal de que não precisamos de tantos recursos. É só rolar o que já temos”, afirmou Goldfajn, destacando que esse é um indicador muito comentado nos encontros que a área econômica do governo tem com investidores estrangeiros. “Estamos criando uma ponte para recuperação da confiança no futuro. Isso é gradual”, completou.

Em função dessa recuperação na conta corrente, o BC reviu, pela terceira vez, todas as suas projeções para 2002 e 2003. A expectativa é de encerrar o ano com um déficit externo acumulado em US$ 11 bilhões. Esse valor é US$ 3 bilhões menor do que a projeção anterior de agosto. E há quem diga que essa nova estimativa ainda é conservadora.

O ponto central desse ajuste é a balança comercial que, em função da combinação de dólar elevado com retração no nível de atividade da economia, vem apresentando superávits consideráveis. Em setembro o saldo comercial foi positivo em US$ 2,5 bilhões, indicando que as exportações superaram as importações nesse montante.

Nos cálculos do BC, o comércio internacional deverá continuar favorável nos próximos meses. Em outubro, a expectativa do BC é de um superávit comercial de cerca de US$ 1,6 bilhão. Mas, no final das contas, o resultado das transações correntes deverá voltar a ser deficitário no total de US$ 900 milhões. “Em outubro há uma concentração de pagamentos de juros da dívida externa”, explicou o chefe do Departamento Econômico do BC, Altamir Lopes. Segundo ele, as despesas líquida com juros da dívida externa em outubro já somavam US$ 1,831 bilhão.

A conta de serviços, entretanto, deverá continuar comprimida. O item viagens internacionais que, em setembro já havia registrado uma receita líquida de US$ 37 milhões, acumula em outubro um superávit de US$ 74 milhões. Isso mostra que os gastos de turistas estrangeiros em viagem ao Brasil têm sido maiores do que as despesas de brasileiros no exterior. “A conta de serviços e renda já sofreu um ajuste significativo e deverá se manter equilibrada. O que vai puxar o resultado em conta corrente será o comércio externo”.

O balanço de pagamentos do Brasil apresentou em setembro um superávit de US$ 1,316 bilhão. O resultado é pior que o de setembro do ano passado, de US$ 3,588 bilhões, mas melhor do que o de agosto, que apresentou um déficit de US$ 2,184 bilhões, porque contabiliza o empréstimo do FMI. Entre janeiro e setembro deste ano, o balanço de pagamentos apresenta um superávit de US$ 2,108 bilhões, ante US$ 6,910 bilhões em igual período de 2001.

O BC divulgou também o resultado da dívida externa, que ficou em US$ 216,457 bilhões em julho. O valor é menor que os US$ 219,038 bilhões de junho e é maior que os US$ 209,934 bilhões de dezembro.