Comércio vai bem, mas podia estar melhor
O comércio continua crescendo, mas poderia estar bem melhor. Os dados levantados pelo Instituto de Economica Gastão Vidigal, da Associação Comercial de São Paulo (ACSP) revelam que o feriado da Independência e a alta da taxa básica de juros, a Selic, anunciada pelo Comitê de Política Monetária (Copom) no mês passado, prejudicaram a recuperação das vendas em setembro.
O Serviço Central de Proteção ao Crédito (SCPC) – que reflete as transações a prazo – registrou uma alta de 5,8% sobre setembro de 2003 no número de consultas, e uma queda de 9,4% em relação ao mês de agosto último. Já o Usecheque – serviço que sinaliza as vendas a vista – registrou uma queda de 1,7% em relação ao ano passado e de 6,1% se comparado a agosto.
De acordo com o economista do instituto, Emílio Alfieri, o crescimento das vendas a prazo poderia ter sido maior, de aproximadamente 8%, se não fosse o aumento anunciado pelo Copom. “A alteração na taxa de juros afetou o consumidor psicologicamente e o deixou com medo de comprar a crédito”, acredita Alfieri.
O presidente a ACSP, Guilherme Afif Domingos, também esperava que na segunda quinzena do mês o movimento do varejo se recuperasse. No entanto, diz ele, o “desnecessário aumento dos juros, prejudicou todo o comércio”.
Além dos juros, cerca de quatro pontos percentuais de expansão no movimento foram perdidos se comparadas as vendas deste ano com as do anterior. Em 2003, o Dia da Independência caiu em um domingo e, neste ano, numa terça-feira. “Quatro dias com a emenda do feriado afetam o comércio”, diz Alfieri.
Cheque – Em relação as compras a vista, a queda registrada foi totalmente por conta do dia 7 de setembro. Segundo Alfieri, se não fosse isso, provavelmente as consultas teriam subido cerca de 2%. Ele também alerta que o mês de setembro sempre apresenta uma pequena queda em relação a agosto por falta de uma data comercial.
Agosto, além de ter o Dia dos Pais, é um mês mais mais comprido normalmente. “Para o SCPC a queda costuma ser de 7% e para o Usecheque de cerca de 5,5%”, explica.
O comércio de bens duráveis, como móveis e eletrodomésticos, é o mais afetado por essa retração. Como são produtos mais caros, em geral são pagos a prazo e a taxa de juros os afeta. Já os bens não duráveis, por serem pagos a vista, sofrem quedas menores.
Inadimplência – Quanto à inadimplência, o presidente da ACSP, Afif Domingos, destaca o aumento de 8,1% que ocorreu em relação ao ano passado. O número foi superior ao aumento dos cancelamentos, de 6,1%, diferentemente do que vinha acontecendo desde o começo do ano. “Por enquanto, trata-se de um resultado pontual, não caracterizando uma tendência de aumento da inadimplência”, observa Afif.
Os próximos meses ainda são um mistério. Embora a renda média do brasileiro tenha parado de cair, estão previstas novas reuniões do Copom de forma que, se os juros subirem, podem afetar ainda mais as compras. “Os bancos preveêm que a Selic chegará a 17% até o fim de ano, o que será ruim para o comércio”, alerta.
Afif também acha desnecessária uma nova escalada da taxa de juros, tendo em vista a desaceleração da inflação de setembro. Segundo ele, o aumento da meta do superávit primário também atua como alternativa de combate à inflação e não dificulta as vendas.
Além disso, lembra Afif, a partir deste mês de outubro, com as bases de comparação do ano de 2003 mais fortes, as vendas do comércio tenderão a se acomodar naturalmente, o que evitará maiores pressões da demanda.
Fernanda Pressinott







