Comer um delicioso bacalhau acompanhado de vinho e, depois, lambuzar-se de chocolate na Páscoa perdem a graça quando se constata que sobre o preço desses itens incidem percentuais de impostos de até 54,74%. Ao comprar um ovo de chocolate, o brasileiro recebe um produto recheado de tributos: 39,2%. Num prato de bacalhau à Gomes Sá, incluindo o azeite, batata, cebola, alho, ovos, salsa e azeitona, estão escondidos 29,17% de impostos. Na Colomba Pascal, são mais 38,68% e, no vinho, 54,74% do preço final vai direto para os cofres públicos em forma de tributos.
O Instituto Brasileiro de Planejamento Tributário (IBPT) calculou para o Diário do Comércio o peso dos impostos sobre os produtos mais consumidos na Páscoa. Com a lista desses produtos em mãos, a reportagem foi a pontos-de-venda verificar o conhecimento e a reação da população sobre o assunto.
“É um abuso”, disse o engenheiro Giuseppe Petrella, ao descobrir que dos R$ 17,90 pagos por um ovo em uma loja da Cacau Show, R$ 7 são impostos. Inconformado, Petrella disse que, embora a carga de impostos seja alta, nem ele nem os cinco netos podiam ficar sem chocolate. “Que remédio! Tenho que agradar as crianças.” Na sua opinião, o problema é que os tributos são mal empregados. “Acredito que os impostos estaduais são bem aplicados, mas os federais não. É só ler os jornais. De onde sai o dinheiro do mensalão?”, indagou o engenheiro. Apreciador da Colomba Pascal, ele verificou o valor (R$ 25,90) e calculou que R$ 10 eram impostos. “Não vou levar.”
A auxiliar de crédito Cleide do Vale comprou R$ 5 em bombons, sendo R$ 2 de impostos. “É injusto pagar tanto para não ter um retorno adequado de serviços públicos. Pagar tudo bem, mas não tão alto”, disse, ao informar que recorre a hospitais particulares pois considera ruim o atendimento na rede pública.
A dona da loja, Edna Campos, também ficou indignada. “É muito imposto para o pouco que fazem”, criticou. Para Edna, em vez de tributar tanto, o governo deveria incentivar o comércio. “Muitos empresários trabalham somente para pagar as contas. Não conseguem reformar a loja, o que poderia incrementar as vendas, gerar empregos para reduzir a violência e a miséria”, disse.
No último sábado, quem comprou bacalhau, azeite e vinho para a Semana Santa no Empório Chiappetta, do Mercado Municipal, também se revoltou com o mau uso da arrecadação tributária. Para a paisagista Ana Cláudia Elias, entretanto, o brasileiro reclama muito, mas não faz nada. Lembrou que poucos acionam o DPVAT (seguro-obrigatório). “A sociedade precisa cobrar seus direitos”, defendeu.
Ana criticou a dificuldade de a maior parte da população entender a questão tributária. “A colocação técnica impede a participação do povo, que acaba não se interessando pelo assunto e fica sem saber o quanto paga de imposto”, disse.
O casal Hélio e Denise Ribeiro, ao descobrir que do valor pago por três quilos de bacalhau, o correspondente a um quilo vai para o Fisco, disse que o povo deveria se organizar para ter um retorno eficiente. “Só que as pessoas com capacidade de liderança pensam em si mesmas, não na sociedade”, criticou Hélio.