O futuro presidente do Banco Central (BC), Henrique Meirelles, garantiu que a equipe que define a política monetária do País não sofrerá grandes mudanças durante o governo Lula. As decisões de política monetária, segundo ele, serão fundamentadas em razões técnicas e não em questões políticas. “Acreditamos na continuidade. Ao contrário do que muita gente esperava, esse governo não vai fazer mudanças bruscas ou ideológicas na formação dos quadros de direção de política monetária”, afirmou Meirelles durante entrevista na qual reafirmou o compromisso do futuro governo com o combate “implacável” à inflação.
Ele disse que deve assumir a chefia do BC em 2 de janeiro mantendo a atual diretoria e não previu nenhuma substituição imediata. “Esta é a nossa diretoria. É muito difícil prever quanto tempo cada um vai ficar, principalmente porque agora vamos estar definindo, conversando com cada um. Não existe aqui nenhum tipo de previsão, de anúncio”, afirmou.
Autonomia – Ele reafirmou a intenção do governo Lula de garantir autonomia ao BC, com mandatos fixos para a diretoria e presidência da instituição. Mas alertou que o projeto que será encaminhado ao Congresso, alterando o artigo 192 da Constituição, ainda não está detalhado. O diretor de Normas do BC, Sérgio Darcy, disse que aceitaria o convite de Meirelles, extensivo a toda diretoria, para permanecer no posto. “Eu tenho desejo de ficar, gostei do que o ele (Meirelles) falou na sabatina. Ele destacou a área de normas, de micro crédito e autonomia do Banco Central…estarei aqui nos próximos meses.”
Sintonia – Meirelles admitiu que tem sintonia com o atual presidente do BC, Armínio Fraga, mas se recusou a dizer se segue a mesma corrente ideológica. “Nas conversas que tenho tido com ele, me parece que temos abordagens bastante similares.” Meirelles espera uma reversão nas expectativas de inflação alta no próximo ano, à medida que fica mais evidente para o mercado o compromisso do futuro governo com a estabilidade de preços.
Falsa idéia – “Como muitos tinham a falsa idéia que o novo governo poderia ser tolerante com inflações mais elevadas, muitos agentes econômicos passsaram não só a prever uma inflação mais elevada como possivelmente alguns puderam até refletir com remarcação de preços”, disse Meirelles. “Tenho convicção de que isso vai mudar.” Meirelles recusou-se a comentar a decisão da véspera do Conselho de Política Monetária (Copom), que elevou em três pontos a taxa básica da economia para 25% ao ano. Ele insistiu na autonomia do Copom para tomar as medidas necessárias de controle da inflação. Mas admitiu rever a meta para o próximo ano, que tem como teto 6,5%. “Isso deverá ser discutido nas primeiras reuniões da equipe econômica que vai, aí sim, anunciar a meta, se mantém a meta ou não. E, anunciado isso, (será divulgado) exatamente o critério e o horizonte previsível do tempo para se chegar a essa meta”, afirmou.
Câmbio sem metas – O futuro presidente do BC descartou metas para a taxa de câmbio, reafirmando que as intervenções do BC no mercado de dólar serão apenas “pontuais”, visando amortecer volatilidades específicas ou em casos de especulação. “Não existe a possibilidade de haver intervenções para estabelecer metas de taxa cambial”, disse. Meirelles afirmou que vai utilizar todos os instrumentos à disposição para financiar a dívida pública. E que vai buscar a desindexação à moeda estrangeira. “Vamos compatibilizar as três metas – de prazo, de taxa e de desindexação – dependendo das condições do mercado.” O ex-presidente mundial do BankBoston disse que pretende retomar contatos profissionais para reabrir linhas de crédito para o País. O reconhecimento de Meirelles no mercado internacional é um dos fatores apontados pelo PT para a escolha dele para o cargo.