Em abril último, o número de empresas que planejavam investir em 2003 para aumentar a sua capacidade de produção foi o menor dos últimos quatro anos: apenas 30%, segundo a da Fundação Getúlio Vargas (FGV). Para voltar a ter um crescimento acima de 4% a 5% ao ano, o Brasil teria de aumentar seus investimentos em 5 pontos percentuais para que a Formação Bruta de Capital Fixo (FBCF) ficasse ao redor dos 24% do Produto Interno Bruto (PIB), ou mais, conforme avaliações da FGV. Em 2002, segundo o IBGE, essa taxa foi de 19,3%, o pior resultado desde 1992. No primeiro trimestre deste ano, a FBCF foi negativa: menos 4,6%.
O governo terá que estimular o consumo das famílias se quiser exibir taxas de crescimento econômico nos próximos trimestres. Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostram que o efeito estatístico da disparada das exportações no Produto Interno Bruto (PIB) começa a se esgotar, o que vai influenciar o taxas futuras do PIB.
O peso positivo do setor externo sobre o PIB, que marcou os últimos trimestres, já não existe. As exportações recuaram 1,3%, e as importações cresceram 4,5% no primeiro trimestre deste ano em relação ao último de 2002. Na comparação do resultado desse trimestre com igual período de 2002, as exportações mostram suave desaceleração, de uma alta de 20,4% para 20,2%.
Os números do IBGE mostram que o início do governo Lula foi marcado por estagnação na economia, com queda de 0,1% sobre o PIB do último trimestre de 2002. A base de comparação enfraquecida pelo racionamento de energia no primeiro trimestre do ano passado – entre janeiro e março de 2002 houve retração de 0,8% na economia – colaborou para que o PIB registrasse crescimento de 2% nos três primeiros meses deste ano, nessa comparação. Pelo mesmo motivo, a taxa de crescimento acumulada nos últimos quatro trimestres registrou 2,2%.
O economista sênior do Citibank, Robério Costa lembra que a economia teve um fraco crescimento nos primeiros três meses do ano passado e que a expansão só se deu na segunda metade do ano, principalmente em razão do câmbio favorável às exportações.
Ao ser indagado se a alternativa do governo para impulsionar a economia deve ser a queda dos juros, o chefe do departamento de Contas Nacionais do IBGE, Roberto Olinto respondeu: “Para crescer, o elemento mais pesado no PIB é o consumo das famílias”.
Olinto disse que o crescimento de 2% do PIB em relação ao primeiro trimestre de 2002 reflete a base de comparação enfraquecida pelo racionamento de energia, além de considerar o crescimento muito pequeno. “A economia se adaptou, não se mexeu”, disse, referindo-se ao período de transição de governos.
O consumo das famílias, que responde por 60% do desempenho da economia brasileira vai, aos poucos, perdendo sua importância no PIB. O IBGE informou a sexta queda consecutiva da demanda interna. No primeiro trimestre de 2003, a retração do consumo foi de 2,3% em relação ao mesmo período do ano passado. Na comparação com o último trimestre de 2002, houve queda de 0,6%. Os investimentos (ou formação bruta de capital fixo) também declinaram, 4,6%.
Mas alguns analistas estimam aumento do consumo ainda neste ano. O Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) projeta para os próximos trimestres crescimento da demanda interna – tanto em forma de investimentos como pelo consumo das famílias.
Paulo Levy, coordenador do Boletim de Conjuntura do IPEA, atrelado ao Ministério do Planejamento, avalia que o consumo das famílias poderá crescer de 1,6% a 1,8%, respectivamente, nos dois últimos trimestres de 2003.
Não que o consumo vá, necessariamente, crescer de fato; trata-se de um efeito estatístico. “Nos últimos trimestres do ano passado, a demanda caiu muito, o que torna a base de comparação favorável”, explicou Levy. Ele, contudo, não descarta que a demanda comece a dar sinais concretos de reativação a partir do segundo semestre, com expectativa de os juros começarem a recuar entre junho e julho. “Pode até não haver um efeito pleno, já que os movimentos dos juros básicos não se refletem na economia de uma hora para outra”, disse.
A expectativa de aumento da demanda explica por quê o Ipea não baixou sua previsão para o PIB em 2003, de 1,8%, já que o mesmo instituto avalia que as exportações vão parar de alavancar o PIB por conta de efeitos estatísticos. O analista do Citibank aposta que setores como o automobilístico e eletroeletrônicos devem ser os primeiros a mostrar a mudança no comportamento da expansão do Produto Interno Bruto.
No caso do setor automobilístico, a expectativa de queda da taxa de juros, esperada para junho, e de taxas ainda menores no curto e médio prazo, devem mover a curva dos juros no mercado futuro.