Esgoto, problema em vias de solução
Agora que são sinalizadas soluções para o problema do tratamento do esgoto guarulhense, vale lembrar um pouco desta história. Há quanto tempo a solução é prometida e não cumprida.
Foi em 20 de maio de 1964 que o então prefeito municipal, Mario Antonelli, recebeu o primeiro projeto do Sistema de Esgotos Sanitários para Guarulhos, elaborado pela firma Sênior – Serviços de Engenharia Orsini Ltda.
Naquele tempo não havia nenhum plano de urbanização e as ruas eram estreitas, com largura inferior a 10 metros. Havia 300 km de ruas, sendo 8 km asfaltadas e 20 km pavimentadas com paralelepípedos. Não existiam coletores públicos de esgotos sanitários e eram utilizadas fossas sépticas, negras ou secas.
Os projetistas da época previram um plano, chamado Greeley-Hansen, que dispunha sobre a construção de uma estação de tratamento de esgotos em São Paulo, no bairro do Tatuapé, para Guarulhos lançar os efluentes. Enquanto isto não era feito, os esgotos de Guarulhos seriam lançados “in natura” e diluídos no rio Tietê, o que, segundo eles, não teria nenhum problema, dada a intensa poluição do rio. Fiz, pela primeira vez no Brasil, um túnel linear – que existe até hoje – feito com 1,60m de diâmetro com uma tubulação de esgoto sanitário de 1m de diâmetro dentro dele. Este antigo emissário passava pela rua Washington Luiz, cruzava a via Dutra e ia por uma estradinha estreita até o rio Tietê, ao lado do restaurante Roda Viva e das instalações da antiga Camargo Correa, entre as vilas Leonor e Sorocabana.
Nas festas de 8 de dezembro de 1968 – aniversário da cidade – ficaram prontas as obras do prefeito Mario Antonelli. O projeto da firma Sênior, previa coletores troncos ao longo dos córregos dos Cubas e dos Cavalos. Com o passar dos anos os mesmos foram abandonados devido ao sub-dimensionamento e às obras viárias que praticamente destruiriam todos os coletores troncos. Guarulhos passou a jogar os esgotos no córrego mais próximo, sem se preocupar mais com os coletores.
A Estação de tratamento prevista em São Paulo pela Greeley–Hansen nunca foi feita, mas o conceito de jogar os esgotos “in natura” no rio Tietê já dura mais de 40 anos.
Em 1967 foi elaborado o Plano Geral de Esgotos de São Paulo pela firma norte americana HazenSawyer, que referendava, em parte, um convênio (Hibrace) que indicava o tratamento dos esgotos de Guarulhos no Tatuapé, em São Paulo, e, depois, eles seriam recalcados para o Reservatório Billings. O interceptor leste – margem norte do Sistema Tatuapé – teria extensão de 11.290m e sua parte final após o rio Cabuçu com dimensões de 3m x 3m, mas nunca foi construído. Foi previsto, ainda, o interceptor leste do rio Cabuçu, com diâmetro de 1m. Também não saiu do papel.
Em 1971 eu era diretor do SAAE. Contratei a firma Coplasa para a “Revisão do estudo de viabilidade técnica, econômica e financeira do sistema de esgotos sanitários de Guarulhos”. Guarulhos tinha, na época, 224.300 habitantes; 118 km de rede de água, 10.400 ligações de água e 15 km de rede coletora de esgotos sanitários, e o SAAE tinha 110 funcionários. Naquele tempo o DAE já tinha mudado de nome para SAEC que cuidava da distribuição da água e o SANESP cuidava somente dos esgotos. O SANESP, portanto, é quem deveria fazer os interceptores ao longo do rio Tietê e do rio Cabuçu, mas nunca o fez. Outra solução não colocada em prática foi o Plano Diretor de Esgotos da Grande São Paulo – Solução Integrada, apresentado em 1974.
É extremamente importante informar que Guarulhos – que em 2007 tem população estimada em aproximadamente 1,3 milhão de habitantes –, deixou para o governo do Estado de São Paulo fazer o tratamento de esgotos e isto nunca foi feito. Somente agora, quando José Serra assumiu o governo do Estado, é que entendimentos com o prefeito Eloi Pietá resolveram o problema. Cerca de 30% dos esgotos de Guarulhos serão tratados pelo SAAE com verba já reservada e o restante será feito em parcerias com o Estado e o governo federal, com encaminhamentos dos esgotos para tratamento nas estações do Parque Novo Mundo e de São Miguel Paulista. Enfim, o problema está praticamente resolvido.
*Plínio Tomaz, 66, é engenheiro civil pela Escola Politécnica da USP, ex-superintendente e diretor do SAAE, e ex-funcionário do Ministério das Minas e Energia. Atualmente, é conselheiro do CREA-SP, diretor de Recursos Hídricos e Meio Ambiente da ACE-Guarulhos, coordenador do projeto de norma da ABNT para aproveitamento da chuva e assessor especial de meio ambiente da OAB-Guarulhos.





