Guarulhos 24 horas: Uma cidade que não dorme
Em Guarulhos, enquanto a maior parte da população dorme tranqüila, muitos trabalhadores estão na ativa, garantindo o sustento de suas famílias. É a cidade que não dorme. E que poucos conhecem
Se você, amigo leitor, estiver lendo esta nota e o sol ainda estiver lá no alto, clareando seu dia de trabalho, boa parte dos personagens desta reportagem estará curtindo o ?sono dos justos?. Enquanto a maioria dos guarulhenses descansa o corpo físico no escuro e no silêncio da noite, um imenso número de taxistas, frentistas, agentes funerários, e policiais, entre outros tantos trabalhadores, lutam pelo seu sustento e de suas famílias durante as madrugadas.
É exatamente a luta que esses guerreiros da noite travam contra o sono, as mudanças na alimentação, o medo de assaltos, a privação da vida social e familiar etc, que o GuarulhosWeb / Revista do Farol mostra em uma viagem de quatro dias nesse mundo particular da cidade que não dorme.
Segunda-feira, 23h27
Com muito bom humor e sempre com um sorriso no rosto. É assim que os funcionários da empresa de coleta de lixo Quitaúna, que presta serviços à prefeitura, dizem trabalhar todas as noites, das 19h às 4h. E foi exatamente assim – aos risos – que Júlio Caetano da Silva Filho, de 46 anos, e seus três companheiros de coleta foram encontrados por volta das 23h30 de uma segunda-feira, na rua Felício Lopes, no Jardim Solange.
Nesse serviço não podemos trabalhar de mau humor.”
“Nosso serviço é bem puxado. Se a gente vier trabalhar de mau humor, não dá certo”, explicou o coletor que há mais de 10 anos trabalha nas ruas da cidade e que diz se sentir bem melhor desde que passou para o turno da noite, três anos atrás. “A gente tem que correr bastante, às vezes carregando sacos de lixo pesados. De noite as ruas estão mais vazias e não tem sol, o que ajuda bastante.”
Segunda-feira, 23h43
Enquanto o caminhão de lixo de Júlio e seus companheiros seguem pelas ruas da região da Vila Rosália e do Jardim Rosa de França esvaziando as lixeiras das residências, outras casas do Jardim Maria Helena, no Maia, são vigiadas pelo guarda noturno Manuel João Maciel, de 58 anos.
O vigia Manuel João Maciel se protege do frio com a sua inseparável garrafa térmica cheia de café
O pernambucano aposentado protege-se do frio com três blusas de lã, um cachecol e um chapéu, além da inseparável garrafa térmica de café. “Nessa época do ano a gente sofre mais”, admite.
Mais do que o frio, a profissão exige que ele permaneça atento a um perigo bem maior: os assaltantes. Maciel diz conhecer histórias de arrepiar de outros colegas, mas garante nunca ter havido nada de anormal na rua Antônio José Romão Filho, onde trabalha há cinco anos. “Só Deus mesmo para nos proteger.”
Terça-feira, 0h15
“Vim com o pneu furado do Jardim São João porque sei que só aqui estaria aberto.” A frase é do motoboy Marcelo Ferreira de Souza, que aguardava o conserto do pneu de sua motocicleta na borracharia 24h do João Aparecido de Oliveira, no Jardim Pinhal, no mesmo instante em que o vigia Manuel Maciel tomava mais um gole de café para espantar o frio e mantinha a ordem na “sua rua” no Maia.
O borracheiro João Aparecido e seu companheiro Nêgo: “Aparece de tudo na madrugada.”
Ao lado do companheiro ?Nego? – um cachorro vira-latas que não deixa a borracharia por nada – João recebe todo tipo de cliente em seu estabelecimento, onde conserta pneus todos os dias, entre 19h e 10h. “Aparece de tudo por aqui de madrugada: muita gente boa, muita gente ruim. Mas todo mundo respeita meu trabalho.”
Há três anos o borracheiro trabalha nesse horário e garante que há mais serviço durante a noite do que de dia. “Conserto de pneu é quase sempre serviço de emergência. Durante o dia você encontra uma borracharia em cada esquina. De madrugada é mais difícil. Por isso as pessoas vêm bastante aqui nesse horário”, explica.
Terça-feira, 3h10
A mesma tranqüilidade que João Aparecido diz não encontrar, durante as madrugadas, em sua borracharia, os garis Manoel Francisco Ferreira da Silva, César Augusto Nonato Godoy e mais 12 funcionários da Proguaru agradecem. “Nesse horário é muito melhor para trabalhar. Não tem ninguém nas ruas e calçadas e nosso serviço rende mais”, explica Godoy.
Funcionários da limpeza pública: “Trabalhar nesse horário é mais tranqüilo.”
A empresa, que presta serviços à prefeitura, mantém os trabalhadores na limpeza pública em três turnos. Silva e Godoy trabalham das 22h às 6h.
Terça-feira, 3h55
A vida de feirante não é nada fácil. Os dias sempre começam bem mais cedo para esses profissionais. “O problema é que não estou conseguindo assistir aos jogos da Copa do Mundo”, afirma o guarulhense Martinho Fernandes, de 55 anos. Antes mesmo das 4h da terça-feira, 27, dia de jogo da Seleção Brasileira pelas oitavas de final do Mundial da Alemanha, Fernandes era o segundo a chegar e começar a montar sua barraca na rua Marcolina Moreira para a feira livre da Vila Moreira. “Mas jogo do Brasil não dá para perder. A gente dá um jeito.”
O feirante Martinho Fernandes não conseguiu assistir aos jogos da Copa do Mundo
O feirante, que acorda sempre às 23h, para ir às compras no Mercado Municipal, em São Paulo, costuma ir dormir às 16h. “Nasci na feira. Minha mãe foi feirante e me carregava na barriga pelas barracas das feiras livres. Adoro o que faço.”
Quarta-feira, 23h30
Poucas madrugadas são tão agitadas quanto aquelas dos 204 funcionários do turno das 22h às 6h da Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos no Terminal de Cargas do Aeroporto Internacional André Franco Montoro, em Cumbica. Todos os dias, nada menos do que 650 toneladas de correspondências passam pela triagem, no galpão dos Correios, antes de embarcarem ou de terem desembarcado de todos os cantos do país. O corre-corre frenético de empilhadeiras, mini-tratores, e funcionários assusta quem tenta entender toda a logística pela primeira vez. O gerente do terminal, Maurício Cândido Carvalho, 42, afirma que é por ali que desembarca 16% de toda a movimentação diária nacional de correspondências. “De todo embarque aéreo nacional, somos responsáveis por 32%”, explicou.
204 funcionários dos Correios, no Terminal de Cargas do aeroporto movimentam 650 toneladas de correspondências toda noite
Carvalho, que exerce a função neste horário há seis meses, diz que já se acostumou com a vida noturna. Para ele, o problema maior é o fim de semana. “Não tenho expediente e preciso dormir no mesmo horário do serviço, o que é complicado.” Ele aponta para o grande número de funcionários que pedem para trabalhar de noite devido a um adicional no salário. “A maioria se obriga a uma adaptação às mudanças enfrentadas pelo organismo por um aumento nos rendimentos. Existem os que não suportam e pedem para mudar de horário, mas são poucos”, conclui.
Quinta-feira, 0h50
Enquanto milhares de cartas e encomendas eram despachadas para todos os cantos do país nos barulhentos aviões cargueiros que levantam vôo em Cumbica, na Clínica Odontológica Iarossi, no Centro de Guarulhos, o cirurgião-dentista Leonardo Delfino dos Reis, 30, aguardava uma cliente que teve um problema com um pivô (dente implantado) durante o dia e precisava colocá-lo de volta. A secretária Suely Alves Ferreira não consegue arranjar espaço em sua agenda para consultar o dentista durante o dia e, há três anos, esse aperto nos horários “normais” a fez procurar o consultório localizado na rua Barão de Mauá, que desde 1992 funciona 24 horas. “E é plantão mesmo. Sempre que precisei vir, mesmo sem marcar, os cirurgiões estavam aqui, de prontidão.”
Paciente é atendida durante plantão da madrugada na clínica odontológica Iarossi, no Centro de Guarulhos
“É muito difícil passar um plantão sem cliente. Sempre tem alguma emergência, alguma hemorragia, um probleminha no canal ou na prótese”, explicou Leonardo, plantonista das quartas-feiras, das 22h às 7h. “Dor de dente durante a madrugada é mais comum do que muitos imaginam.” O profissional, diferente de outros que trabalham na madrugada, garante não sofrer as conseqüências de passar uma noite por semana acordado. “Não sinto problemas. Além de mim, a clínica possui mais 16 cirurgiões e a escala do plantão não permite que fiquemos tão vulneráveis aos sintomas físicos de uma noite inteira de trabalho.”
Quinta-feira, 1h10
“A noite é uma criança linda. Desde que você durma bem durante o dia.” É assim que o supervisor do setor de pneus de bicicleta, Carlos César Félix, 38, da Pneus Levorin, na Vila Fátima, costuma motivar os 68 funcionários sob seu comando na fábrica. Ao todo, são 350 trabalhadores que dormem de dia e suam – bastante – o uniforme durante a noite. A empresa é responsável pela produção de 1,5 milhão de pneus de bicicleta e de 100 mil pneus para motocicletas todo mês.
Carlos César Félix, da Pneus Levorin: “A noite é uma criança linda se você dorme bem de dia.”
O serviço é puxado. Como em toda linha de produção, uma distração do funcionário em qualquer etapa da fabricação dos pneus pode atrasar toda a linha, que funciona engrenada e no tempo certo, como um grande relógio. “Tenho muitos funcionários jovens na linha de produção. Explico sobre a importância de um bom dia de sono, de uma alimentação regular e da disciplina nos horários que, em nosso expediente, exige uma atenção maior.”
Apesar de exigente, Félix entende a dificuldade de se adaptar ao ritmo do trabalho noturno. Ele mesmo encontra obstáculos para conciliar a falta do trabalho nos fins de semana. “Tento apenas cochilar durante o dia e durmo a noite. Mas já me peguei com o olho arregalado de madrugada, sem conseguir dormir.” Para o supervisor, o apoio da família de quem trabalha de madrugada é fundamental. “Em minha rotina diária procuro separar algumas horas, geralmente durante o almoço, para dar atenção à minha filha, antes de ela ir para a escola. Isso é fundamental. Para mim e para ela.”
Quinta-feira, 3h43
A diversão de muitos casais é garantida pelo trabalho – duro – delas. As recepcionistas de motel têm uma rotina de trabalho bem mais agitada do que muitos possam imaginar. Elas recebem os clientes – que, muitas vezes, têm pressa em alugar um quarto, e mais pressa ainda para deixar as dependências do local -, cuidam dos pedidos para o serviço de quarto, e contabilizam o caixa.
Elas explicam que o intenso movimento noturno só começa a partir das quintas-feiras. Antes disso, de segunda a quarta-feira, os clientes costumam aparecer durante o dia. “Não é fácil trabalhar a noite. Geralmente, o público que freqüenta motel nesse horário é aquele que volta das festas. São os famosos baladeiros”, explica Lígia de Araújo Dias, 34, e que há um ano e meio trabalha na recepção do Motel Yes, na Vila Augusta, entre 22h e 6h. “Não é sempre, mas às vezes aparecem alguns engraçadinhos.”
Mais um cliente é atendido pela recepcionista Lígia Dias, no Motel Yes. “O público da noite é diferente.”
A encarregada Lurdes Regina costuma ficar na recepção nos fins de semana, quando o serviço aumenta e as exigências dos clientes também. “Alguns pedem suítes mais baratas e não acreditam quando dizemos que estão ocupadas”, explica.
As dificuldades em se conseguir descansar durante o dia também jogam contra essas profissionais. “Eu tenho dificuldades enormes para conseguir dormir. Moro numa rua muito barulhenta”, diz Lígia. “Além disso, existem as privações que somos obrigadas a amargar na vida social. Meu filho adora ir ao cinema comigo, mas preciso descansar para trabalhar bem durante a noite”, completa Lurdes.
Quinta-feira, 4h25
Cena rara: Plantão tranqüilo no Corpo de Bombeiros
Enquanto mais um casal deixava seus documentos nas mãos de Lígia, na entrada do Motel Yes, a equipe de reportagem do GuarulhosWeb / Revista do Farol encerrava sua aventura pelas madrugadas guarulhenses no Posto do Corpo de Bombeiros do bairro do Macedo, na avenida Monteiro Lobato. Ao contrário da movimentada rotina dos soldados da corporação – sempre envolvidos em salvamentos e resgates – a quinta-feira estava tranqüila. “Não tivemos nenhuma ocorrência durante a noite toda, mas isso é imprevisível. Quando menos se espera, acontece algum acidente e temos que correr”, afirmou o bombeiro Adalberto, de plantão.







