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Dar oportunidade é a solução

Guarulhos, 13 de setembro de 2004

As empresas querem contratar jovens com experiência. Os jovens querem conquistar um emprego, mas, como não têm experiência, não conseguem. Conseqüentemente, sem um emprego, não conquistam seu lugar ao sol. E, assim, a história se repete, dificultando o ingresso de milhares de jovens brasileiros no mercado de trabalho, quando somente uma oportunidade seria a solução de grande parte do problema.

Algumas empresas vêm mudando essa realidade: incentivam a geração de empregos para adolescentes de 16 a 18 anos, sem experiência e de baixa renda oferecendo oportunidades de aprendizado e trabalho.

O programa Formare, desenvolvido por várias empresas, entre elas a Bardella Indústrias Mecânicas, é um belo exemplo. Criado pela Fundação Iochpe – organização civil sem fins lucrativos -, se trata de uma rede de escolas profissionalizantes, com cursos de um ano duração, operada por empresas que beneficiam jovens de baixa renda.

Iniciado em 2003, em Guarulhos e na unidade de Sorocaba, o objetivo foi desenvolver as potencialidades dos jovens e possibilitar a participação voluntária dos colaboradores em projetos sociais. Para isso, segundo uma das coordenadoras do programa, Edna Soprano, o trabalho começou para “capacitar 40 jovens para atuarem com iniciativa, visão de conjunto e de acordo com os princípios da segurança e qualidade no apoio e suporte aos sistemas de gestão de processos, produtos e meio ambiente”.

Hoje, em Guarulhos, 21 alunos estudam várias disciplinas todos os dias dentro da empresa e ainda recebem benefícios. No ano passado, 20 adolescentes se formaram e, destes, 15 foram contratados pela própria empresa.

Lição de cidadania – Para realizar o curso, foram selecionados jovens da comunidade carente do município. Durante o processo de seleção, a empresa fez uma visita socioeconômica para identificar a realidade vivida pela família do jovem. Entre os critérios de avaliação a renda por pessoa na família não poderia passar de meio salário mínimo, o adolescente deveria estar estudando e não poderia ter participado de nenhum curso profissionalizante anteriormente. “O objetivo era dar oportunidade para jovens realmente carentes”, diz Edna.

De segunda a sexta-feira, das 8 às 16h45min, os alunos têm aulas ministradas por “colaboradores educadores”, como são chamados os mais de 80 – só em Guarulhos – funcionários voluntários que ocupam um horário dentro do seu expediente de trabalho para da as aulas.

Eles aprendem disciplinas como Comunicação e Relacionamento, Desenho Técnico, Matemática, Higiene, Saúde e Segurança, Gestão da Qualidade e Conservação e Organização Industrial e Comercial, entre outras. “Os jovens estão realmente conseguindo um diferencial aqui”, comemora a coordenadora.

A orientação pedagógica baseia-se nas recomendações do Ministério da Educação (MEC), que prevê o desenvolvimento de competências e habilidades obtidas através da associação da teoria e da prática. “Os cursos são certificados por instituição federal vinculada ao MEC”, explica.

Além de aulas teóricas e práticas, os alunos recebem bolsa auxílio de meio salário mínimo, cesta básica, vale transporte, vale refeição, assistência médica e odontológica.  “Eles não pagam nada por isso. Após o curso eles mudaram muito. Hoje vêem que tem oportunidades, perspectivas, pensam em faze faculdade, algo que nem pensavam antes”, diz Edna.

Perspectivas para o futuro – Além de profissionalizar, o Formare devolve a auto-estima para os adolescentes, cria expectativas e consegue atingir um dos objetivos que, segundo o presidente da Bardella, Dr. José Roberto Mendes da Silva, é “tornar o jovem um cidadão”.

Danilo Mota, 18, que realizou o curso no ano passado, foi contratado pela Bardella em março desse ano como auxiliar administrativo. “Antes do Formare eu não tinha nem idéia de como era uma empresa. Hoje sei como é o mercado de trabalho”. O incentivo foi tanto que, há uma semana, o adolescente começou a cursar Logística em uma faculdade do município.

Caio César Lucas Maciente, 18, que passou pelo mesmo processo, também foi contratado e trabalha como programador de planejamento. “Antes eu tinha dúvidas sobre o que eu queria fazer. Com o Formare descobri logo de cara”. Caio já está estudando para prestar o vestibular para o curso de Engenharia, em janeiro de 2005.

Outra aluna que hoje trabalha na empresa é Francisca Jaqueline Macedo, 18. “O Formare me deu segurança e suporte. Aqui aprendi a conviver e a respeitar as pessoas. Hoje me sinto preparada para enfrentar o mercado de trabalho”. Ela disse que antes, pensar em um curso universitário era um “bicho de sete cabeças”. “Não é porque a gente é de uma classe desfavorecida que não tem direito de fazer um curso universitário”.

O presidente tem orgulho do programa e mantém um contato direto com os adolescentes.  “Muitas coisas mudaram desde a implantação do projeto. A troca de experiências é fantástica. Aprendi muito e aprendo todos os dias”, acrescenta.