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É hora de o “País do futuro” começar a olhar para o passado

O Brasil continua sendo o País do futuro. Mas, agora, também é o do passado. Afinal, aumentou a participação dos idosos na população total. Hoje, dos cerca de 180 milhões de habitantes, 9,6% do total, ou 16,7 milhões, têm 60 anos ou mais. E a tendência é que os brasileiros vivam cada vez mais.

O aumento da expectativa de vida das pessoas nos últimos dez anos foi motivado, principalmente, pelos avanços na saúde e no saneamento básico. Em 1993, a esperança de vida média do brasileiro ao nascer era de 67,7 anos. Em 2003, chegou a 71,3 anos. Nas mulheres, ela é alcança os 75,2 anos e, para os homens, é de 67,6 anos.

Mas, não fugindo aos contrastes que marcam a história do País, também aqui as diferenças de tratamento são gritantes. De um lado, idosos que freqüentam grupos de terceira idade e conseguem curtir a merecida aposentadoria. De outro, senhores e senhoras que, ao invés de passar as tardes com os netos, carregam cartazes de emprego nos grandes centros. Tudo para complementar uma aposentadoria pífia.

Vida boa – Lígia Fontoura da Costa Palma é uma das afortunadas que conseguiu chegar aos 77 anos plena de saúde. Depois de criar dois filhos e ajudar a cuidar dos netos, agora usa o tempo para relaxar e cuidar da casa, onde mora com uma filha e um neto. “Ninguém diz que tenho essa idade. Também, sempre me cuidei, mesmo quando trabalhava fora e cuidava da casa. Faço ginástica, tomo fortificante e uso muitos cremes para manter a vitalidade. E até agora deu certo”, conta.

Além disso, ela dá a receita da lucidez: manter a mente sempre ocupada. Afinal, não basta ter o corpo são, se a mente padece. “Leio jornal todos os dias e todo tipo de revista. Converso com meus netos, faço tricô. Mas, o mais importante mesmo, é o convívio com a família”, ensina Lígia.

Ela reconhece, entretanto, que de um modo geral não é assim que a sociedade lida com o idoso. “Há muito desrespeito, e dentro da própria família”. Acredita que muitas famílias ricas mandam o idoso para “casas de repouso”. “Que de repouso não tem nada. É só um jeito de afastar o idoso de casa, pois acham que ele dá muito trabalho”, afirma.

Desrespeito – Na opinião do advogado Flávio Crocce Caetano, Lígia está coberta de razão. Caetano, que é presidente da Comissão de Estudos do Idoso da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB-SP), afirma que as pessoas mais velhas continuam sendo desrespeitadas freqüentemente.

Segundo ele, um ano depois de criado, o Estatuto do Idoso ainda não trouxe grandes avanços. “O estatuto garante direito pleno à saúde, mas as filas nos hospitais públicos desmentem esse direito. Isso sem falar em aposentadoria digna e acesso gratuito ao transporte coletivo ou atendimento preferencial”, enumera o advogado. “Esses são apenas alguns exemplos de que o País ainda não sabe cuidar de sua história”, afirma.

Para mudar isso, só com conscientização. “As pessoas precisam saber que o estatuto existe e que ele garante direitos básicos aos mais velhos”, salienta Caetano. Claro que o ideal seria o respeito “pelos cabelos brancos”. Mas, enquanto isso não ocorre, o respeito a lei já ajudaria.

Patrícia Büll

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